‘Ainda há juízes em Berlim’

“(…) Se a ideia é de bom ou mau gosto, para mim ou para outra pessoa, pouco importa. Ao Juiz é vedado proibir que cada ser humano expresse sua fé – ou a falta desta – da maneira que melhor lhe aprouver. Não lhe compete essa censura… Há pouco tempo, assistimos ao assassinato de cartunistas franceses do Charlie Hebdo, que satirizaram questões religiosas. Na essência, foram censurados. Censurados por expressar sua maneira de pensar.

Não, ao Juiz não compete censurar a fé ou sua ausência.

(…) A alegada questão da sexualidade de personagens, imaginada para o espetáculo, é absolutamente irrelevante. Transexual, heterossexual, homossexual, bissexual, constituem seres humanos idênticos na essência, não sendo minimamente sustentável a tese de que uma ou outra opção possa diminuir ou enobrecer quem quer que seja representado no teatro.

Neste aspecto, dentro da subjetividade inerente ao tema, possível arriscar que erra o autor quando afirma “ isso não é arte”… Antes da estreia na Capital Gaúcha, já está aflorando paixões. Ódio, parece já ter despertado. O que melhor consistiria em arte do que a obra que toca, acaricia ou fere, os sentimentos humanos? O ajuizamento da presente demanda e as angústias que vertem da inicial são a prova contundente de que, de arte, estamos a falar (…)”

(Trecho da decisão exemplar do juiz José Antonio Coitinho, da 2ª Vara da Fazenda Pública de Porto Alegre, ao rejeitar liminar para suspensão da peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, que será exibida no Porto Alegre em Cena, a mesma que foi proibida por um juiz paulista dias atrás. Decisão importante em uma época de crescimento acelerado da intolerância, como mostrou a suspensão de uma exposição de arte em Porto Alegre há bem pouco tempo. Coitinho faz lembrar o que disse o humilde moleiro alemão ao enfrentar o poder do imperador Frederico II, no século 18:  ‘Ainda há juízes em Berlim’)

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Sobre mariomarcos

Jornalista, natural de criciúma, fã incondicional de filmes, bons livros e esportes
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9 respostas para ‘Ainda há juízes em Berlim’

  1. Carlos disse:

    arte para mim é a Yeda Crucius que tem um salario de 66 mil reais, integrar a comissão do governo para investigar os super salarios… tem que ser artista para votar no Temmer, lula, dilma, sartori, tarso, FHC, Collor, Renan….e o povo ainda vota nesses artistas…

  2. fred disse:

    Quando a decisão do juiz concorda comigo, ela é exemplar, já quando discorda de mim ou da agenda que defendo ela é fascista.
    Parece que não temos mais jornalistas em Porto Alegre e sim apenas militantes sindicais.
    Quanto ao que é arte, sugiro olhar o teto da capela Sistina e depois as “obras” do satãder..

    • Campeão FIFA disse:

      A tua opinião é legítima (embora eu não concorde) e a do juiz também seria se ficasse só para ele. Problema é alguns juízes dizerem o que eu devo ver ou ouvir baseados na seus conceitos estéticos e não no que diz a constituição.

      • Campeão FIFA disse:

        Em tempo: a sentença não é exemplar porque aplauda o conteúdo da peça ou que quer que seja, mas porque estabelece o papel que o judiciário deveria ter nas democracias.

    • Rafael disse:

      E os militantes sindicais travestidos de jornalistas, que sempre têm resposta para tudo, de economia a comportamento, quebraram seu próprio sindicato no RS, mesmo recebendo os repasses vultosos do imposto sindical. O mundo real é bem diferente da bolha de doutrinação em que vivem.

    • mariomarcos disse:

      Leste alguma vez aqui no Blog eu chamar um juiz de fascistas por determinada decisão? Que mania de julgar os outros de acordo com seus próprios valores. Eu vi a Capela Sistina e vi muitas outras obras em muitos museus que aqui seriam catalogadas como foram as do Santander. Ninguém é obrigado a ir ao museu. É evidente que quando um juiz dá uma lição de sabedoria e de inteligência como este, tem de ser destacado. Sempre vou fazer isso. Quanto aos outros, podes ler em outros blogs. Há muitos por aí que pensam exatamente como tu. Não vejo problema nisso. Esta é uma boa diferença entre nós. Quando os teus comentários são contrários aos meus (e sempre são) eu não te ofendo (nem com insinuações) nem ofendo tua profissão, que nem sei qual é. É uma boa diferença.

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