Os dois países de Rafael

Na última terça-feira, dia 8, a 1ª Câmara Criminal do Rio negou, por 2 votos a 1, o habeas corpus que deixaria em liberdade o catador Rafael Braga. Com isso, ele permanece preso. Rafael é negro e pobre, como a imensa maioria da população dos presídios brasileiros.

Ele é personagem de um absurdo caso de injustiça.

Rafael foi preso em 2013, em meio às manifestações daquele ano, portando embalagens de Pinho Sol e de água sanitária. Para a polícia, ali estava alguém capaz de transformar as embalagens em coquetéis molotov. Rafael nem participava das manifestações. Apenas catava objetos no lixo, como fazia todos os dias.

Denunciado, foi condenado pela 32ª Vara Criminal do Rio a cinco anos de prisão, apesar de os próprios peritos da polícia terem concluído que não seria possível fazer bombas a partir das embalagens de plástico. Com a apelação, a pena foi reduzida para quatro anos e oito meses.

No ano seguinte, já no regime semiaberto, passou a trabalhar em um escritório de advocacia. Em seguida, foi para o regime domiciliar.

Em janeiro de 2016, usando tornozeleira, foi preso por ‘tráfico de drogas’, segundo a polícia. Ele tinha em seu poder 0,6 grama de maconha e 9,3g  de cocaína. Foi condenado então a 11 anos e três meses de prisão, mesmo alegando inocência.

É, Rafael, é a mesma Justiça brasileira que libertou há pouco o filho de uma desembargadora, branco, rico, que estava de posse de mais de 100 quilos de maconha e armas de uso exclusivo da polícia.

Ou que enquanto mantém presa, no interior paulista, uma mulher humilde que furtou um chocolate de um súper, mandou para casa as senhoras Cunha e Cabral que, coitadinhas, achavam normal gastar milhões em lojas de grife e em jóias, sem desconfiar que nada disso poderia sair apenas dos salários de seus maridos. Ingênuas e inocentadas.

São ricas e brancas.

 

São dois países profundamente desiguais e injustos, meu caro Rafael. E duas Justiças: a dos ricos e a dos pobres.

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Sobre mariomarcos

Jornalista, natural de criciúma, fã incondicional de filmes, bons livros e esportes
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7 respostas para Os dois países de Rafael

  1. 66 disse:

    Cadeia é realmente só para preto e pobre.
    Até agora não sabem quem era o dono do helicóptero.
    E não aparece um maluco pra apagar uma meia-dúzia de vermes.

  2. Maurício disse:

    Deve haver uma ‘convicção’ de que o Rafael é mais perigoso que o filhinho-de-mamãe.

  3. INTERminável COLORADO disse:

    A justiça brasileira SEMPRE foi elitista, e negro e pobre no Brasil não tem vez.

  4. Campeão FIFA disse:

    Eu vi em outro bolg: e se o sobrenome do Rafael fosse Sirotsky?
    O que nem sempre fica claro é cada vez que se enterra inquéritos por se tratar de algum figurão é uma chance de investigar o crime organizado e as rotas das drogas, vide o helicoca. Enquanto aviões decolarem de terras de ministro impunemente a violência que já respinga no nosso dia a dia só aumenta.
    Enquanto isso uma legião vai no discurso fácil de um bolsonaro e demoniza o estatuto do desarmamento como responsável pela violência. Discurso inflado pela indústria armamentista. Por favor. Muito difícil vislumbrar algo bom.

  5. alessandro machado disse:

    Os 2 casos são tráfico.. 9,3g de cocaína é cocaína para caramba!

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