As duas histórias

Certos livros nos deixam com a sensação, nem sempre confortável, de que há uma história oficial e outra não contada – ou, pelo menos, tão mal contada que passa despercebida. É a convicção que tive ao completar a última página de um livro excepcional, indispensável, que li com algumas décadas de atraso, chamado A Primeira Vítima, de Philip Knightley (de 1975). A obra já está fora de catálago, mas é possível encontrá-la em sites como o da Estante Virtual. O título faz referência à frase do senador Hiram Johnson, proferida em um discurso de 1917.

– A primeira vítima – disse o político – quando começa a guerra é a verdade.

Knightley conta a história real a partir de uma exaustiva pesquisa sobre o trabalho dos correspondentes de guerra, desde o primeiro deles, William Howard Russel, na Criméia, em 1854, até o Vietnã. Escreveu antes dos últimos conflitos no Oriente Médio. Se atualizasse a obra, certamente o número de distorções seria ainda maior.

Aos poucos, é possível constatar que há duas histórias, lado a lado: a oficial, construída a partir de uma forte censura dos militares, que muitas vezes dilaceram os textos originais, ou por omissão por vezes criminosa dos repórteres, e a real, com os fatos que foram escondidos ou não percebidos. E nem sempre a versão é mais interessante do que o fato, como diz o diretor do jornalzinho de uma cidade do velho oeste em O Homem que Matou o Facínora. Neste caso, a história real, não contada na época dos conflitos, é muito mais importante.

Há partes das guerras registradas de passagem, outras omitidas e algumas que contrariam completamente o que se escreveu na época. Poucos sabem que tropas aliadas ficaram em território soviético depois da I Guerra para tentar derrubar os bolcheviques que tomaram o poder. Não apenas isso. Na imprensa do Ocidente, textos falavam em vitórias arrasadoras das tropas e do apoio da população local. Na realidade, os invasores levavam derrotas sucessivas, liderados por comandantes desmoralizados.

Fatos assim se repetem ao longo de todos os conflitos, com pequenas diferenças. Quem sabe o que realmente houve na península coreana, num dos conflitos mais mal contados da história, segundo a pesquisa de Knightley? Ou nos outros? Crimes de guerra atenuados ou escondidos, genocídios mascarados por versões completamente alteradas pelos censores militares ou em textos que os grandes jornais se recusaram a publicar para não melindrar a população, muitas vezes envolvida na máscara do patriotismo.

É um livro que é preciso ler com um bom marcador à mão, que provoca recuos para conferir se determinada história foi realmente assim, que empolga e assusta.

Um documento indispensável.

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Sobre mariomarcos

Jornalista, natural de criciúma, fã incondicional de filmes, bons livros e esportes
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2 respostas para As duas histórias

  1. Niederauer disse:

    Anotado. Talvez tenha na Feira do Livro que se realiza por aqui. Há bastante stands de obras usadas, senão, vamos atrás via internet.
    Obrigado.

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