Mais um grande vai para casa

A sexta-feira da greve geral que parou o país marcou também o último dia do meu velho amigo e parceiro Nílson Souza em Zero Hora, depois de quase 50 anos de jornalismo, 31 deles na Redação atual.

Foi gentilmente convidado a se aposentar.

Tenho uma relação especial com o Nílson, de quase cinco décadas.

Fizemos vestibular juntos, cursamos a Fabico e começamos a nossa vida profissional no mesmo dia 14 de abril de 1970, como estagiários da antiga Folha da Tarde, num programa de aproveitamento de alunos do jornalismo criado pelo Walter Galvani. Éramos três parceiros inseparáveis: Nílson, eu e o Claiton Selistre, hoje em Florianópolis.

Morávamos na Zona Norte, eu em um quartinho na Vila Elizabeth, o Nílson com a família no Sarandi. Todas as manhãs, eu acordava, cruzava a Assis Brasil e chegava ao pequeno bar que o pai do Nílson mantinha bem no momento em que ele abria as portas. Ali, eu ganhava uma xícara de café para quebrar o jejum, enquanto esperava o Nílson se aprontar. Depois, com a velha Rural Willys da família, íamos até o prédio da faculdade.

Aprendi em meus tempos de Redação que ninguém é insubstituível, mas como preencher a vaga de alguém com a formação do Nílson?

Ele não tem apenas um dos melhores textos que conheço, mas também desenvolveu ao longo da vida um rigoroso código de ética.

Sua mesa na Editoria de Opinião sempre foi o lugar seguro buscado especialmente pelos jovens da Redação em busca de orientação, dica de texto, conselho sobre o rumo da matéria. Foi um ouvinte atencioso e um conselheiro paciente. Formava aquilo que Jânio de Freitas chama de corrente de transmissão de conhecimento, que sempre foi padrão nas melhores redações: os mais experientes passam os detalhes da profissão para os mais jovens. Jânio também define este período como o pós-graduação do jornalismo.

O conhecimento acumulado por jornalistas assim não fica em um arquivo para que o jornal o utilize quando for necessário. O Nílson leva tudo com ele.

Por isso, não tenho dúvidas: quando alguém com esta qualidade deixa a Redação, quem perde são os leitores e o jornal.

São os tempos modernos.

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Sobre mariomarcos

Jornalista, natural de criciúma, fã incondicional de filmes, bons livros e esportes
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16 respostas para Mais um grande vai para casa

  1. Fred O Calmo disse:

    “… greve geral que parou o país…”?
    Forçou a barra, hem?

  2. Campeão FIFA disse:

    Sinceramente MM, não sei se quem assina um jornal para ler David Coimbras e etc se importa com a saída dos grandes. Já foi assim com o Moisés Mendes.

  3. Niederauer disse:

    Mário
    Ainda temos as edições de Sexta e Dominical, minha mulher assina.
    Uma das colunas que lemos sempre é a do Nilson Souza.Muito triste.
    Sobre a ZH, a parte esportiva sofreu a maior queda de qualidade, porque é aquela em que os jornalistas não se sentem constrangidos pelos chefes e empregadores e em tese, teriam condições mais amplas para o exercício do jornalismo isento. Não é o que acontece.
    Só sobraram os cabeções. Aqueles que se sujeitam a fazer o trabalho de 2 ou 3 profissionais por um “punhado de reais a mais”, se matam sem imaginar que quando forem apenas bagaço, quando o suco escassear, também rumarão à rua sem o devido reconhecimento financeiro, profissional e pessoal.
    Os bons estão saltando ou foram saltados da barca.
    Bom para a mídia alternativa e concorrência.

    • almiro disse:

      Às vezes dá saudades da Caldas Jr. q, a exemplo do JB, fazia um jornalismo mais pé no chão, vá lá q fosse uma oposiçãozinha meia boca, os milicos pegavam pesado e tinham apoio irrestrito dos marinho e sirotsky, agradeço teu espaço democrático, MM, mas ‘greve geral’ é piada de mau gosto, o q se viu foi um bando de baderneiros, vândalos e vagabundos infernizando a vida do cidadão.

      • mariomarcos disse:

        Ah, tu também com esta história de vagabundos? Ainda bem que de vez em quando, ao longo da história, ‘vagabundos’ foram para as ruas lutar por direitos que hoje eu, tu e tantos outros aproveitamos, muitas vezes sem percebermos. Aliás, muitos ‘vagabundos’ foram queimados em fábricas, executados nas ruas, linchados, apenas porque ousaram contrariar algumas normas. Mas cada um com sua visão, certo?

      • Fred O Calmo disse:

        Também não vi greve e sim baderna, mas os companheiros são assim: fracassam e chamam isso de sucesso.
        O que houve foi a gritaria sindical por perder a boquinha do imposto sindical, só isso.

  4. 66 disse:

    MM, a velha guarda da mídia esportiva gaúcha está se aposentando e não tem substitutos à altura.
    E a internet vai acabar com o jornal. Não duram mais 5 anos. O teu amigo se aposentou na hora certa.
    Tu já fez essa análise, MM?? Do impacto da internet nas mídias tradicionais??
    Jornal e revista vão desaparecer. Ninguém mais compra jornal.

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