Das leituras

“(…) Toda a estrutura de nossa sociedade colonial teve sua base fora dos meios urbanos. É preciso considerar esse fato para se compreender exatamente as condições que, por via direta ou indireta, nos governaram até muito depois de proclamada nossa independência política e cujos reflexos não se apagaram ainda hoje…

(…) Estereotipada por longos anos de vida rural, a mentalidade de casa grande invadiu assim as cidades e conquistou todas as profissões, sem exclusão dos mais humildes. É bem típico o caso testemunhado por um John Luccock, no Rio de Janeiro, do simples oficial de carpintaria que se vestia à maneira de um fidalgo, com tricórnio e sapatos de fivela, e se recusava a usar das próprias mãos para carregar as ferramentas de seu ofício, preferindo entregá-las a um preto (…)”

(Sérgio Buarque de Holanda, no livro Raízes do Brasil, um clássico que se dedica a explicar a formação do país. É uma obra lançada em 1936, com sucessivas edições, mas que em parte parece falar sobre o Brasil atual)

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Sobre mariomarcos

Jornalista, natural de criciúma, fã incondicional de filmes, bons livros e esportes
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3 respostas para Das leituras

  1. Ricardo disse:

    Mas na sua “essência” o Brasil nunca mudou mesmo.

  2. Rodrigo R. disse:

    Essas raízes rurais até hoje influem num desprezo à industrialização (até por sua relação inevitável com o sindicalismo urbano “comunista”) e à emancipação tecnológica. Fica fácil nessas circunstâncias, para um Temer da vida, de um partido historicamente lacônico, que se esfrega lascivamente na bancada BBB, cortar a metade do orçamento de pesquisas nas universidades e fica fácil para os moleques deslumbrados da VazaJato matarem o paciente para curar a doença, no caso da Petrobrás. Algo assim: “Viva a exportação de bananas, viva a importação de geleia de banana” (mais cara)”…

    Nunca houve uma ruptura drástica no brasil, o povo sempre foi alienado ou manso com o status quo, aceitando o poder de quatro, submisso como um atual viciado em Globo e JN. Que cara de pau da direita homenagear Tiradentes (uma vítima das adoradas delações: nos anos 70 seria terrorista, hoje seria “mortadela” a ser mandado à Salém brasileira), mais um assassinado sob euforia entusiasmada “dos cidadãos de bem”. Ídolo nacional que se aparecesse hoje seria preso como Jesus no capítulo “O Grande Inquisidor”, de Irmãos Karamazov… É natural e esperado que nessas condições as relações e transformações sociais, morais e culturais estejam sempre muito atrasadas em relação às mudanças político-administrativas em termos de fim de domínio português, fim de escravidão, fim de império, fim do domínio coronelista, fim de diversas ditaduras e tentativas fracas democracias, coisa que nem é levada a sério. Uma terra com, essencialmente, um povo bunda mole e passivo, com um “elite” boçal, terra de indigentes intelectuais.

    Quanto à boçalidade da “elite” carioca de então (que como toda “elite” fajuta brasileira renega sua mulatice desde sempre e se faz de europeia caucasiana), é famoso o espanto de Luccock ao ver, no calor insuportável do Rio de Janeiro, os imbecis, se esvaindo em suor trajando pesadas roupas europeias, a roupa do “cidadão de bem”… Em antigas fotos do Rio, lá da época em que Machado de Assis ainda vivia, dá para pensar: esses 40°C de hoje não ocorriam na época?

  3. Rafael disse:

    SBH está se revirando no túmulo pelo que se transformou o partido que ele ajudou a fundar.

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