A ética exemplar de Rodrigo Caio

Um velho amigo costuma repetir que a ética de cada um é testada principalmente naqueles momentos de isolamento. Ou seja: a pessoa faz o certo mesmo sem estar sendo observada. Faz parte de seu próprio caráter, não importa se está sozinha ou em meio a outros.

Lembrei disso ao saber das reações de boa parte da torcida do São Paulo nas redes sociais, irritada pela atitude de seu zagueiro, Rodrigo Caio, que no último domingo fez o árbitro anular o cartão amarelo a Jô, seu adversário de Corinthians. Caio disse que o pisão no goleiro tinha sido dado por ele e não por Jô. Detalhe: o cartão seria o terceiro e afastaria o atacante do jogo decisivo do próximo fim de semana.

Caio ganhou aplausos até do árbitro.

A atitude não agradou a seus próprios torcedores e nem mesmo ao parceiro de zaga Maicon. Em entrevistas depois do jogo, ele disse que preferia ver a mãe do adversário chorar do que sua própria. Portanto, não teria a mesma atitude de Caio.

Por isso, lembrei daquela definição de ética na abertura do texto.

Aqueles torcedores do São Paulo e o próprio Maicon certamente aplaudiram jogadores europeus que tiveram a mesma atitude e elogiariam se Caio estivesse em outro time. Mas como a honestidade do jogador ajudou o adversário, aí não. Ética, no caso, é apenas uma palavra bonita para ser apreciada de longe.

Sempre tenho esta dúvida. Uma vez perguntei em um texto qual seria a reação do torcedor da dupla Gre-Nal se uma atitude assim fosse tomada por um jogador de seu time, no fim de um clássico, beneficiando o adversário. É um bom exercício. Este é o grande teste para cada um. O momento em que a pessoa está sozinha, longe dos olhares. Qual seria a reação?

Acima da opinião de cada um está a atitude exemplar de Rodrigo Caio. Faz bem nesta época de crises éticas por todos os lados ver alguém reagir como este ainda jovem jogador do São Paulo. Ele teve coragem de enfrentar olhares desconfiados em nome de sua própria ética – aquela que ele aprendeu ao longo da vida.

Merece um intenso e demorado aplauso.

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Sobre mariomarcos

Jornalista, natural de criciúma, fã incondicional de filmes, bons livros e esportes
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17 respostas para A ética exemplar de Rodrigo Caio

  1. analista disse:

    Complicado demais, até porque o ambiente do futebol sempre primou pela malandragem e pela pretensão de levar vantagem e de ganhar de todo jeito. Isso é notório. Agora, que essa coisa de simulação para ganhar tempo, seja pelo goleiro, seja na hora da substituição, aquele negócio de simular falta e que foi atingido com gravidade pelo adversário, as reclamações e tumultos a cada apito do árbitro, na hora de formar uma barreira e etc. já andam enchendo, isso me parece bastante claro… aliás, talvez seja um dos motivos para muitos deixarem de gostar do futebol em geral, apenas torcendo para os próprios times quando muito… eu me incluo nisso daí… quando você observa o nível de uma liga dos campeões, campeonato inglês, e vem para nossa realidade, a coisa fica feia demais… em bom português, é muita chinelagem e bagacerada juntos… mas acho que não muda tão logo…

    • analista disse:

      E complementando… basta ver o comportamento das pessoas no trânsito, no cinema, na internet e vamos notar que a falta de educação e ética permeiam todos os ambientes… é fato! E não vai mudar.

    • Ricardo disse:

      Pior ainda foi o “professor” Rogério Ceni, que ficou puto da cara com o Rodrigo Caio.

  2. Maurício disse:

    Pensava que depois de simulações patéticas como a do Rivaldo em plena Copa 2002 – em que leva uma bolada no corpo e cai com as mãos no rosto, mesmo sabendo estar sob o olhar do mundo inteiro em múltiplos ângulos – a boleiragem passaria a pensar melhor antes de querer ‘contrariar a imagem’. Qual nada.
    Não, não tô dizendo que foi essa a motivação do Rodrigo Caio, até porque eram 3 jogadores embolados no lance e ele poderia tranquilamente alegar não ter como saber quem havia tocado quem. Ali foi honestidade mesmo. Mas o lance, também no último domingo, em que o Zé Roberto é tocado no peito pelo Pottker e cai com as mãos no rosto é digno de Oscar. O Damião é um mestre em fazer isso, e essa ‘habilidade’ já é de conhecimento dos árbitros.
    Fazer a malandragem virar burrice é uma das virtudes da tecnologia.

  3. Rafael disse:

    O absurdo foi ele ser criticado por pernas de pau desonestos de seu próprio time. Ou seja, além de péssimos jogadores, são também péssimos cidadãos. Rodrigo Caio está muito acima dessa gente, seja em termos técnicos, seja em termos éticos.

  4. Guasca disse:

    Seria o terceiro amarelo do Jô e ele ficaria de fora da segunda partida.
    Imaginem se ele mete mais uma bucha, vão correr o RC do SP.

  5. Fifaldino disse:

    Isso me lembrou os jogadores do Juventude pressionando o árbitro (e depois comemorando) para a marcação de um pênalti que todos sabiam que não havia ocorrido. Acho que só eu questionei a “ética” daquele episódio. Por que será???

    • Miguel disse:

      Mas, é possível entender os jogadores do Juventude. Como o mesmo William conduziu a bola com a mão no primeiro tempo e nada foi marcado eles devem ter tido a sensação de que havia sido feito justiça, embora por caminho torto. Sem contar que alguns jogadores, dependendo da posição em que estavam podem ter realmente achado que a bola tivesse batido no braço.

  6. Miguel disse:

    Por vezes me irrito com a cera em demasia do Marcelo Grohe.

  7. Kikomarques disse:

    Eu já me daria por satisfeito se os jogadores parassem de simular faltas e agressões. E além do mais, o Rodrigo Caio puxou um grande problemas para si. E agora? Como será quando ele fizer um pênalti e o juiz não marcar? Todos exigirão que ele continue sendo honesto e avise ao juiz: “Senhor juiz, eu fiz pênalti, eu estava segurando a camisa do atacante na hora da cobrança do escanteio”. Que bom seria se ele continuasse agindo assim, e baseado no seu exemplo, todos os demais jogadores o seguissem. Mas isso seria utopia das utopias. Durante décadas, a imprensa brasileira elogiou os dois “passinhos malandros” que Nilton Santos deu na Copa de 62, induzindo o árbitro a marcar falta fora da área um lance no qual ele havia cometido penalidade máxima no jogo contra a Espanha. A imprensa elogia até hoje este gesto do Nilton Santos. É assim, quando somos neutros, ou quando é a nosso favor, queremos honestidade. Mas voltando ao jogo São Paulo X Corinthians, o Jõ estava impedido no seu gol. Um pouquinho só à frente da zaga, mas estava. O Corinthians devia pedir a anulação do seu gol.

  8. Kikomarques disse:

    Eu já me daria por satisfeito se os jogadores parassem de simular faltas e agressões. Além do mais, o Rodrigo Caio puxou para si um grande problema. E agora, como será quando ele fizer um pênalti e o árbitro não marcar? Todos exigirão que ele continue sendo honesto e se acuse. Durante anos a imprensa brasileira idolatrou os dois “passinhos malandros” do Nilton Santos, na Copa de 62, induzindo o árbitro a marcar falta fora da área um lance que seria pênalti contra o Brasil, em partida frente a Espanha. É assim, se somos neutros ou favorecidos, a honestidade vale, se não….. Voltando ao jogo São Paulo X Corinthians: não teria o timão que pedir a anulação do gol do Jô? Ele estava um pouquinho à gente da zaga, impedido. E aí?

  9. Marcon disse:

    No nosso futebol, quem faz o certo está errado e quem faz o errado está certo… e agora?

  10. Marcon disse:

    No nosso futebol, quem faz aquilo que é certo está errado e quem faz o que é errado está certo… e agora?

  11. Marcon disse:

    Exagero, só vale um…

  12. Maurício disse:

    Estagiário de edição detectado.

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