Das leituras

“(…)  Senhores, não tenho a honra de pertencer à sua classe, veem em mim um camponês que se revoltou contra a baixeza de sua sorte… Meu crime é atroz e premeditado… Mas, ainda que fosse menos culpado, vejo homens que, sem se deterem em tudo o que minha juventude pode merecer da piedade, vão querer punir em mim e desencorajar para sempre essa classe de jovens que, nascidos numa classe inferior e de alguma forma oprimidos pela pobreza, têm a sorte de conseguir uma boa educação e a audácia de misturar-se ao que o orgulho dos ricos chama de boa sociedade. Este é o meu crime, senhores, e, na verdade, será punido ainda mais severamente por não ser julgado por meus pares. Não vejo nos bancos dos jurados nenhum camponês enriquecido, mas apenas burgueses indignados (…)”

(Julien Sorel diante dos jurados que o julgariam por uma tentativa de assassinato no clássico O Vermelho e o Negro, de Stendhal, escrito em 1830).

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Sobre mariomarcos

Jornalista, natural de criciúma, fã incondicional de filmes, bons livros e esportes
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14 respostas para Das leituras

  1. Rafael disse:

    O velho discurso diversionista de guerra.

    • casiorabello disse:

      E ainda tão atual como verdadeiro.

      • Rafael disse:

        O discurso é atual porque ainda é muito usado por certos grupos, mas encerra em si mesmo a falácia de justificar crimes por serem resultado da luta de classes. Assim, tudo é permitido, desde que feito em favor da causa. Só que essa narrativa cínica cada vez tem menos acolhida na população. Estamos na fase da queda das máscaras. Algumas demoraram mais a cair, dando a falsa impressão de que estávamos diante de pessoas honestas, mas não resta dúvida de que agora essas máscaras estão no chão.

      • Rodrigo R. disse:

        O Rafael acredita que o crime tem relevância no trecho… Essa visão estreita é comum quando você lê algo já armado contra o que vai ler, mal lê o que está escrito, vê o que quer ver, porque acredita que o simples contato com coisas ideologicamente desconfortáveis o retira do conforto das igrejinhas de ódio, nas quais mata a fome de pertencimento em um grupo de pensamentos comuns onde mais que tudo se busca uma segurança “religiosa”, uma ponderabilidade nas coisas, ainda que tosca. Não compreende a situação econômica e social europeia na época, coisa que ajudaria na compreensão da ficção da época – “Ah! História é coisa de comunista! Deus me perdoe se ler História!”

      • CAMPEÃO DE TUDO disse:

        Mas olha só quem está falando aqui! O mesmo que acredita que a quadrilha que nos roubou durante décadas e quebrou o país agora está empenhada em consertá-lo. Isso sim é que não está sendo acolhido por quase ninguém na população! Alguns aqui deveriam falar apenas de futebol onde os enganadores têm um certo prestígio por algum tempo.

  2. Rodrigo R. disse:

    O depoimento se adapta perfeitamente ao que vemos no brasil explicitamente nos últimos anos mas que sempre existiu entranhado nos fígados frustrados da direita raivosa: uma guerra dos conservadores sem nada a conservar, uma direita pobre, frustrada e inculta, contra ascensão e a igualdade social, e se possível tomando com o poder dos tribunais para manter o status quo pervertido. Conservadores sem nada a conservar (a direita pobre e estúpida), cheios de problemas de estima, buscam eternizar um sistema de “castas”: é a forma de preponderar à qual se agarram, mantendo os indesejáveis na lama, porque a alternativa da direita fajuta brasileira de crescer ela mesma está fora de cogitação – como vão crescer sendo amebas acomodadas na mediocridade e sedentarismo, com cultura de novela e BBB? Sendo analfabetos funcionais, culturais, filosóficos e políticos? Não é preciso um crime como no trecho para essa turma: serão sempre “culpados” todos aqueles que “banalizarem a elite” com suas presenças indesejadas. E farão de tudo para que os indesejáveis não cresçam na vida.

    A “elite brasileira” é boçal, não é elite de nada, não é uma elite intelectual: comem big brother e novela, terceirizam para pastores ideológicos e cartilhas sem escrúpulos suas opiniões furadas, não são capazes de argumentar absolutamente nada do que acreditam por doutrinação e lobotomização. Sentindo isso, são tomados de um profundo ódio que os fazem ser haters e correr do contraponto, num desespero parecido com o de religiosos inseguros com sua fé. Assim, aceitam ouvir e ler apenas o que pode reforçar suas fracas e doentias convicções das cartilhas da “boa sociedade”: misoginia, homofobia, xenofobia, machismo, criacionismo, etc etc. Não é uma elite econômica também: são um mundo de ferrada, desempregados e concurseiros. Ruminando essa dura frustração (frustração: adubo histórico de ódios direitistas) é claro que é muito importante manter o povão mais ferrados que eles, a qualquer custo – ainda que eles não tenham nenhum argumento para dizer que não fazem parte do povão! A “elite brasileira”, sob os próprios critérios preconceituosos, não é uma elite étnica: miscigenados, cabelo duro, nariz chato, mulatos, sararás… mas marcam nos cadastros “caucasiano” por serem, acreditam, uma “elite étnica”… (sim existe essa crença de “elite étnica”, politicamente incorreta, dificilmente admitida, mas muito clara, por exemplo, no anonimato libertador da internet.) Odeiam se olharem nos espelhos e verem suas caras miscigenadas, ah como odeiam!

    Não são elite de nada! Ainda assim (e por culpa também das esquerdas os chamarem de “elite”) acreditam que estão por cima. Quando uma pessoa rica e/ou culta e/ou caucasiana dá uma opinião de esquerda, se enraivecem, tal situação vai de encontro ao que determinaram como realidade. Reagem babando de ódio, como que traídos, com os termos “esquerda caviar”, “esquerda festiva”, etc, na ponta da língua, tentando de alguma forma constranger tal pessoa de esquerda, como se essa pessoa estivesse em contradição: “Está do lado dos miseráveis? Seja como eles então! Larga a grana e vá para o time deles!” Como se o problema da desigualdade social fosse pertinente apenas às esquerdas. Se fossem capazes de entenderem que não é assim ficaria fácil entenderem porque, inclusive, tantos ricos e bem sucedidos tem repulsa pelos “valores” perpetuadores de desigualdade defendidos pelos conservadores sem nada a conservar.

  3. Marcão disse:

    Cara… Só existe uma “Luta de classes” legítima: poderosos x povo. “Burgueses x camponeses”, “ricos x pobres”, “brancos x pretos”, “coxinhas x mortadelas”, “héteros x gays”, “ateus x religiosos”, são tão somente cortinas de fumaça para o que os poderosos realmente querem: que o povo se destrua entre si e eles possam continuar eternamente mamando nas tetas do poder. O resto é papo de idiota útil…

    • Rafael disse:

      É que alguns precisam criar espantalhos para atacar. Fazem disso uma missão de vida.

      • CAMPEÃO DE TUDO disse:

        Calma Rafael a turma da lista Fachin e de tantas outras listas andam, com a sua intelectualidade magnífica, apenas preocupados em consertar o país que quebraram e não em se proteger e se safar das maracutaias que praticaram e praticam.

      • Rafael disse:

        Se fosse tão simples assim, na forma de uma coisa ou outra, as previsões seriam mais fáceis. Mas a política é resultado de uma multiplicidade de interesses, muitas vezes antagônicos, que confluem para um lugar diferente do que cada um dos atores inicialmente almejava. Isso é bem nítido agora, quando centenas de políticos têm planos jogados por água a baixo e buscam desesperadamente se salvar da ruína política e pessoal. Enfim, quem tem culpa em cartório deve sair do jogo.

      • CAMPEÃO DE TUDO disse:

        O simplista aqui foi você que andou dizendo dias atrás que essa gangue que está no poder há décadas estava agora empenhada em consertar o país que quebraram! Não estão, nunca estiveram e continuarão querendo apenas se dar bem nas nossas costas! Simples assim!

      • Rafael disse:

        Consertar a economia é uma questão de sobrevivência política. São as crises econômicas que majoritariamente derrubam governos, mesmo que se usem pretextos jurídicos para sacramentar a derrubada. Mas que o padrão moral é baixíssimo e que a todo momento esse grupo tenta se proteger, disso não há dúvida.

      • CAMPEÃO DE TUDO disse:

        Consertar a economia aprovando medidas que beneficiam os próprios proponentes?

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