Para pensar

Ralei duro para ser Juíza de Direito. Cheguei a estudar 12 horas por dia em busca da concretização do tão almejado sonho. Abdiquei de festas, passei feriados em frente aos livros, perdi momentos únicos em família. Sim, o esforço pessoal contou. Mas dizer que isso é mérito meu soa, no mínimo, hipócrita.

Em primeiro lugar, nasci branca. Faço parte de uma típica família de classe média. Estudei em escola particular, frequentei cursos de inglês e informática, tive acesso a filmes e livros. Contei com pais presentes e preocupados com a minha formação. Jamais me faltou café da manhã, almoço e jantar. Nunca me preocupei com merenda ou material escolar.

(…) Na linha da corrida em busca do sucesso e realização, eu saí na frente desde que nasci. Não é justo, não é honesto exigir que um garoto que sequer tem professores pagos pelo Estado entre nessa competição em iguais condições. Nunca, jamais estivemos em iguais condições. O discurso embasado na meritocracia desresponsabiliza o Estado e joga nos ombros do indivíduo todo o peso de sua omissão e da falta de políticas públicas. A meritocracia naturaliza a pobreza, encara com normalidade a desigualdade social e produz esquecimento – quem defende essa falácia não se recorda que contou com inúmeros auxílios para chegar onde chegou.

(Fernanda Orsomarzo, juíza do Tribunal de Justiça do Paraná, em uma espécie de manifesto e desabafo em suas redes sociais)

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Sobre mariomarcos

Jornalista, natural de criciúma, fã incondicional de filmes, bons livros e esportes
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19 respostas para Para pensar

  1. Marcelo - Rio de Janeiro disse:

    Recomendo a leitura para aqueles que repetem pensamentos antigos do tipo “tem que ensinar a pescar”. Parabéns, MM!

  2. Ivan lima disse:

    Se não há igualdade de oportunidades não há como avaliar com justiça desiguais sob o mesmo critério, pois se selecionará sempre os que tiveram as melhores oportunidades para estudar e se preparar, ou seja, não haverá igualdade de resultados. Por isso, o Governo Social-Desenvolvimentista adotou a política compensatória com cotas que apenas aparentemente se choca com a meritocracia, mas, pelo contrário, a complementa

  3. Marcon disse:

    Essa publicação não é recente, já foi veiculada há 5 meses, no blog/site TRIBUNA, de Curitiba/PR: “JUÍZA PARANAENSE FERNANDA ORSOMARZO VIRALIZA AO CRITICAR A MERITOCRACIA – Por Redação 06/09/2016 07:38”
    (*) Fernanda Orsomarzo, integrante da AJD (Associação Juízes para a Democracia), associação de magistrados de viés marxista

    Abaixo o contraponto (no mesmo blog/site): “JUÍZA MINEIRA REBATE TEXTO SOBRE ‘MERITOCRACIA’ DE JUÍZA DO PR E VIRALIZA – Por Redação 09/09/2016 13:03”

    (…)
    Uma das pessoas que discordou foi a juíza de Direito mineira Ludmila Lins Grilo, que disse que independente da cor de pele ou condição financeira da pessoa, a meritocracia conta sim no sucesso de um indivíduo. Ela invoca as pessoas a “se levantarem” e buscarem o sucesso.
    Veja o que ela postou sobre o assunto:
    “Minha resposta ao POST da juíza Fernanda Orsomarzo, integrante da AJD (Associação Juízes para a Democracia), associação de magistrados de viés marxista que frequentemente fala ao público como se representasse todos os juízes, quando, na verdade, é repudiada pela grande maioria dos magistrados.
    Fernanda disse que ralou duro para ser juíza de direito. Entretanto, ressaltou que essa vitória não deve ser imputada somente a ela e aos seus méritos, mas sim, a uma conjunção de fatores positivos que, desde sua tenra infância, pôde desfrutar: casa, escola particular, comida na mesa, aulas de inglês, informática. Diz que, graças a todas essas circunstâncias, ela foi alçada a um patamar de maior comodidade, e, privilegiada, teve mais chances de conseguir chegar onde chegou. Invoca questões raciais: “nasci branca”.
    Fernanda é contra a meritocracia. Acha injusto desresponsabilizar o Estado e jogar “nos ombros do indivíduo todo o peso de sua omissão e falta de políticas públicas”. Diz que “quem defende essa falácia não se recorda que contou com inúmeros auxílios para chegar onde chegou”.
    Fernanda se esforça em mostrar para o público como é difícil para o pobre vencer na vida. Milhares de pessoas compraram a sua ideia. Fernanda estimulou a revolta nessas milhares de pessoas.
    Pois eu não farei isso. Jamais estimularei a sua revolta contra um ente abstrato e sem rosto, como o “Estado”. Estimularei a sua coragem sua força de vontade e, principalmente: sua FÉ. Vem comigo!
    Assim como Fernanda, eu ralei duro (duríssimo!) para ser juíza de direito. Era um verdadeiro sonho a ser perseguido dia após dia. Mas, ao contrário de Fernanda, não tive tantas facilidades assim. Morava no subúrbio do Rio de Janeiro, no bairro de Olaria. Não tinha vista para o Cristo Redentor, mas sim, para o Complexo do Alemão. Conservo até hoje uma pequena cicatriz na perna de um TIRO tomado dentro da escola, aos 11 anos, em Ramos. Minha mesinha de estudo ficava à beira da janela: quando começavam os tiroteios, eu precisava sair dali da linha de tiro. Pegava o livro e ia ler na cama, toda torta e com baixa visibilidade. Os olhos e a coluna sofriam, mas o espírito sempre estava em FESTA.
    Muito tempo de estudo foi tomado durante minhas viagens no 621 (Penha-S.Peña), ônibus que eu pegava para a ida ao trabalho administrativo em um hospital ao pé do morro da Mangueira. Nem sempre conseguia ir sentada, muitas vezes eram 40 minutos, uma hora em pé, desconfortável, suando, sendo empurrada, com os braços doendo por ficar segurando naquele ferro acima da cabeça. Mas minhas “folhinhas” de estudo estavam à mão: não havia tempo perdido. Não havia espaço para vitimismo: minha alma estava em FESTA.
    O retorno da faculdade era feito na linha 313 (Pça. Tiradentes-Olaria): altas horas da noite eu voltava sozinha naquele ônibus vazio, cheio de perigos, transpassando a Central do Brasil, Leopoldina, São Cristõvão, Jacaré…ah como eu tremia quando entravam no ônibus aquelas pessoas sinistras no Jacaré! Cheguei a presenciar assalto com fuzis na estação de Bonsucesso. Mas meu livrinho estava sempre à mão, e meu coração estava em FESTA. Fazia uma breve oração, pedia a Deus por minha vida. E Ele me conservou.
    Sabe por que estou te contando toda essa história? Pra mostrar ao mundo o quanto sou fera e incrível? Nada disso. Estou te contando essa história para que você não acredite em pessoas como a Fernanda.
    Enquanto a Fernanda diz que só é juíza porque também recebeu um “empurrãozinho” da vida, eu te digo que esse empurrãozinho não é necessário: você pode começar do zero. Não temos castas no Brasil. Um rico pode ficar pobre e um pobre pode ficar rico.
    Enquanto a Fernanda te diz que você deve esperar tudo do Estado, eu te digo que você não deve esperar NADA do Estado. Levante-se! Faça você mesmo! Come on!
    Enquanto Fernanda invoca questões raciais para dizer que esta circunstância a ajudou na vida, eu te digo: deixe o racismo com eles. Independentemente da sua cor, você PODE.
    Enquanto a Fernanda te conta que você deve ter revolta, eu te digo: você deve ter otimismo, força de vontade e FÉ.
    Enquanto a Fernanda te estimula a permanecer onde está, por não ter condições financeiras, eu te digo: ignore sua condição financeira. Não fique onde está, se não te agrada. Saia daí. É possível e viável. Você pode sim.
    Isso é a meritocracia que tanto irrita a Fernanda. E claro que existem desigualdades sociais – e, lamento informar: sempre existirão. Por isso, parta para o abraço: não deixe que pessoas como Fernanda digam que você não pode. Não acredite nisso. Não se vitimize. VOCÊ PODE SIM.”

    Pergunto eu: e agora, quem tem razão?

    • Miguel disse:

      Não, a Fernanda não diz para esperarmos tudo do estado. Ela não diz ao pobre ficar acomodado, chorando porque não tem condições. A Fernanda apenas quer que o estado faça a parte dele. Ela apenas reconhece que aqueles que tem mais condições financeiras levam, sim, vantagens sobre quem tem menos condições embora quem tenha mais condições não garanta a esse o sucesso.

    • Rafael disse:

      Evidentemente que o relato da juíza mineira induz a sair da inércia e trabalhar para atingir os objetivos, algo socialmente muito mais produtivo do que o discurso da juíza paranaense de ficar exigindo ajuda do Estado. O conceito de meritocracia está sendo deturpado intencionalmente por aqueles que veneram o modelo de Estado superprotetor e interventor, e demonizam o esforço pessoal, pois ele torna nítidas as diferenças individuais.

      • Miguel disse:

        Não interpreto que a juíza paranaense esteja demonizando o esforço pessoal. Vejo ela reconhecendo que teve privilégios que muitos não tem e que não se pode botar todos no mesmo saco.

    • mariomarcos disse:

      Em nenhum momento a Fernanda disse que se deve esperar tudo do Estado. O que ela escreveu é bem fácil de entender. Pelo menos, eu pensava assim.

      • Rafael disse:

        MM, deve-se ir um pouco além da simples interpretação de texto. Compare o efeito de cada discurso na mente e atitude das pessoas. Há aquele que induz à inércia e vitimização e outro que estimula o esforço pessoal reconhecendo-o como ingrediente principal para o sucesso.

      • mariomarcos disse:

        Em nenhum momento ela desvalorizou o esforço. Ela apenas deu um depoimento, de alguém que viveu a situação. Estes depoimentos, para mim, são os mais importantes.

  4. Fernando Martini disse:

    Para que cometer o erro de desqualificar a meritocracia? Chamamos de falácia a meritocracia porque ela tem erros. Está certo isso? É como desqualificar a democracia por seus erros.

    Não existe perfeição. Se a dita juíza quer se fazer de paladina e quer fazer alguma expiação de culpa através de uma confissão de ter tido uma infância boa, isso é com ela. Não sei o que passa na cabeça dessa senhora. Agora, não é porque as pessoas, ou mesmo que muitas pessoas achem que não, o esforço e o mérito são importantíssimos. Há uma frase que diz que até certa idade, podemos culpar o mundo pelo que somos, mas depois que adquirimos consciência, somos nós responsáveis por aquilo que somos.

    Admitir que a meritocracia não é válida, é uma ode ao vitimismo e um desapego a nossa capacidade de criação e de liberdade. Antes de existirem as coisas, alguém as criou. É compreensível e justificável que quem não teve condições como a da juíza se perca no caminho, mas nunca conheci quem estudasse 12 horas por dia como ela e não tivesse a merecida recompensa. O brabo são aqueles que tem uma vida tão dura que nem essas doze horas dispõe. Mas a grande maioria, teria condições de estudar muito mais. E a grande maioria poderia assumir muito mais sua parcela de responsabilidade das coisas na vida do que achar responsáveis.

    Ela diz, nunca, jamais, estivemos em iguais condições. E nem estaremos… Isso até eu sei. E quem sonhar que as pessoas um dia poderão ter iguais condições é um parvo. Muitas pessoas tem como objetivo de vida criar bem os filhos. Como uma pessoa que tem um pai amável e dedicado vai competir com uma pessoa que tem um pai degenerado? Então o estado deve substituir a família para impedir que hajam distorções…? Não, temos que aceitar que existem diferenças, e ponto. Algumas políticas públicas para beneficiar a população carente, em especial em educação, ao meu ver são muito válidas, mas jamais vão modificar o que é a pirâmide social. Uma vida é muito pouco para um filho de trabalhador, através de uma vida regular, se tornar rico. E da minha parte nem acho que isso deva ser um objetivo de vida… Mas parece ser o de muita gente. Enfim, já estou falando nada com nada.

    • Miguel disse:

      Concordo que não se deve demonizar a meritocracia, mas também não dá pra achar que quem trabalha 9, 10 horas por dia e estuda a noite, ou que estuda em escola onde falta, e, em casa mesmo, falta material, deve ser avaliado em igualdade de condições de quem tem tempo de estudar 12 horas por dia sem faltar nada.

    • Ricardo disse:

      Cada ser humano é único, nenhum é igualzinho ao outro, portanto, jamais haverá a utopia da igualdade social.

      • Rafael disse:

        Essa utopia é perniciosa, pois se contrapõe ao talento pessoal e nos condena à mediocridade. O igualitarismo é a grande falácia que permeia corações e mentes doutrinadas por décadas. A luta da sociedade deve ser pela expansão das oportunidades de estudo e trabalho, mas achar que isso tornará a sociedade mais igual é uma perda de tempo. As pessoas são essencialmente diferentes em talento e ambição. Desconhecer isso é de um primarismo comovente.

      • mariomarcos disse:

        Mais uma vez, um pequeno reparo: não é de igualdade que estamos falando, até porque o mundo sempre terá diferenças. O que a juíza destaca – e eu concordo inteiramente – é que a meritocracia só pode ser essencial em pessoas que disputam um objetivo em condições iguais. Professores estaduais, por exemplo: como falar em meritocracia se uns estão em bons colégios, outros em prédios sucateados, alguns até em contêineres?

    • Fernando Martini disse:

      Realmente é bom que existam mecanismo de compensação. Entretanto mecanismo de compensação são paliativos que dão uma pintura na parede que precisa trocar o reboco, quiçá ser reerguida.

      • Fernando Martini disse:

        ¨*Mecanismos…

      • Fernando Martini disse:

        Sobre a valorização da meritocracia em carreiras, acho que isso é um ponto complexo. Agora fiquei na dúvida sobre o que está sendo posto em questão. Há profissões com um sistema complexo de valorização do mérito. Acaba acontecendo de pessoas trabalharem em função das regras de valorização do que em função do que acreditam, é assim em muitos casos, principalmente nos que tem muito a ganhar. Eu vou levando a vida. Não concordo que a meritocracia em sua essência seja uma falácia, mas nossa sociedade está tão bagunçada que ninguém mais quer se esforçar pra nada. Ninguém quer criar a vaca, já querem o Nescau gelado na caixinha.

      • Rafael disse:

        O absurdo é que aqueles que seriam os maiores beneficiários do sistema meritocrático também são os que se insurgem contra ele, pois meritocracia estranhamente virou palavrão no receituário esquerdista. E assim, o apadrinhamento, o nepotismo, o favorecimento político nadam de braçada nas organizações.

  5. marcos gaucho de BSB disse:

    E uma discussão interessante, especialmente se tratada com alguma isenção (na medida do possível) e sem extremismos.
    Pela minha experiência, não será nas redes sociais que o debate ocorrerá dessa forma.

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