O drama dos outros

Pergunta meramente retórica e com boa dose de ingenuidade: será que nós, humanos, fomos sempre assim?

Durante a entrevista do secretário da Fazenda na Gaúcha, na manhã desta quarta-feira, os boletins dos repórteres, diretos da Assembleia, falavam em fim de fundações, no extermínio de dezenas de empregos e relatavam o choro de funcionários frustrados e decepcionados por terem lutado em vão, muitos sem perspectiva imediata de mudar de vida.

Pois bem, enquanto aquele choque ocorria, todas as perguntas de ouvintes encaminhadas ao secretário falavam nos próprios salários, com absoluta insensibilidade quanto ao sofrimento dos outros. Será que agora haverá dinheiro para o décimo-terceiro? Com esta economia, os salários serão pagos em dia no próximo ano?

Ou seja: se resolverem nosso próprio problema, tudo bem que os outros sofram. Apoiamos o pacotaço.

E o drama na Praça da Matriz cada vez maior.

Sempre fomos assim?

Sei que a emergência de cada um é sempre a maior (foi uma lição que aprendi com médicos e pacientes no período em que trabalhei no Clínicas), compreendo que é um drama também não ter o salário em dia, é absolutamente humano pensar em suas próprias aflições, tudo bem, mas será que nem em momentos assim conseguimos ser solidários com a dor dos outros? Ou pelo menos discretos e egoístas, para não passar a ideia de que tiramos proveito do sofrimento alheio?

Posso estar exagerando, eu sei, mas me estragou a manhã.

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Sobre mariomarcos

Jornalista, natural de criciúma, fã incondicional de filmes, bons livros e esportes
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8 respostas para O drama dos outros

  1. Maurício disse:

    Entendo teu ponto, Mário, mas trata-se de uma questão quase que primitiva de sobrevivência pra boa parte desses servidores. Lembro que pensei nisso quando vi aquele homem protestando sozinho à frente do Piratini, acho que ainda em outubro, gritando coisas como ‘o que vou dar pro meus filhos comerem hoje à noite?’.
    Não deve ser fácil ser solidário de bolso e barriga vazios!

    • mariomarcos disse:

      Compreendo e digo isso no texto, mas ao menos poderiam ser discretos em respeito ao drama dos outros.

      • Maurício disse:

        Que tempos difíceis… Lembro que nos anos 80 a Prefeitura de Pelotas ficou meses sem pagar salários, fornecendo só vale-alimentação, e o astral na cidade era terrível.

        Mas o pior de tudo mesmo é a perspectiva [igualmente] ruim [ou pior] pra 2017.

  2. edi tavares disse:

    e o drama dos BMs? tem que sentar a cassetada nos seus colegas de luta?!
    defender uma assembléia que irá prejudicá- los também. única e exclusivamente pela sobrevivência, já que, o governo compra os oficiais e esses executam as ordens, os policiais que não cumprirem são presos, processados e exonerados, por insubordinação.

    Acho que sempre fomos assim MM, ensaio sobre a cegueira do Saramago, mostra bem o que é ser humano

  3. Fernando Martini disse:

    É que estão os dois no drama.

    E cada um acha que o seu problema é o mais urgente. Provavelmente, nem se deram conta da gravidade da coisa (eu mesmo aqui da minha alienação sem tv e celular nem sabia dessas demissões, achava que iam ter de realocar os funcionários do estado).

    Eu mesmo se não tivesse recebido meu 13° estava enrolado, porque ele entrou para colocar a casa em ordem e equilibrar as finanças do ano. Sobrar nem pensar. Se não tivesse recebido, ia ser meio desesperador. Lembro que tive um problema no banco com um cartão e já foi um transtorno…

    Não que seja de apoiar uma demissão para me pagarem um dinheiro a mais, não sei, nunca passei por isso, é um mundo cão esse do capitalismo…

    Esse 2017 está com uma cara de anos 90 que vou te contar…

    • Fernando Martini disse:

      Fui ler uma notícia e me dei conta que tinha escrito 2017, vim conferir e estava errado mesmo. Era um twite que dizia: que 2017 humilhe 2016.

      Aí lembrei da frase que eu tinha pensado… esse 201 e 7 está com um cara de anos 90, e aí pensei, cara, tanta cara que até o Grêmio foi campeão… desculpe se soa indelicado, mas brincadeiras a parte, que situação!

      Perspectivas? Temer não dura, reformas de arrocho neoliberais sendo feitas sem o respaldo eleitoral, torneira da corrupção jorrando sem parar e o orçamento do estado sendo congelado para sempre…

      a impressão é que essa noite escura terrível ainda está nas primeiras horas…
      vontade de dormir e esperar o sol voltar logo.

  4. Jorge Nogueira disse:

    O pacote de Sartori foi desenhado por uma consultoria do PGQP ao preço de R$ 2 milhões. Trata-se de uma consultoria empresarial vinculada ao Movimento Brasil Competitivo (MBC), ambas apoiadas e financiadas por empresas que constam nos esquemas da Lava Jato e da Zelotes. Tem que ser muito ingênuo para acreditar que essa gente está colocando em “ordem” o que eles próprios bagunçaram!

    Em nível federal o noticiário dá conta de uma benesse de R$ 105 bilhões para as teles e que o governo federal vai pagar as dívidas dos aeroportos privatizados! Ajuste fiscal “inevitável”, remédio amargo “necessário” e Estado mínimo é só para o andar de baixo. Para o andar de cima é cada vez mais “melzinho na chupeta”!

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