Chapecoense: o trauma em meio a uma história de sucesso

Fui um dos conquistados pela Chapecoense. Eu e boa parte do Brasil. Desde que comecei a participar como comentarista de transmissões de jogos da equipe, ainda na campanha vitoriosa da Série B, em 2013, pelo Sportv, apendi a admirar o que aquele clube de uma cidade do Interior conseguia fazer com um orçamento enxuto, administrado com seriedade e uma espantosa competência.

Tudo que nós, jornalistas, sempre sonhamos ver nos grandes clubes brasileiros.

O drama da madrugada desta terça-feira, quando o acidente perto de Medellín causou a morte de 76 pessoas, entre jogadores, integrantes de comissão técnica e jornalistas, traumatiza uma história vitoriosa como poucas.

A Chapecoense, como clube, tem apenas 43 anos. Nos últimos cinco, no embalo de uma administração competente, o time saiu da quarta divisão do futebol brasileiro para a decisão da Copa Sul-Americana, o segundo torneio em importãncia da América do Sul. Viajava a Medellín para jogar o primeiro dos dois confrontos com o Nacional, o campeão da Libertadores e que em dezembro estará no Mundial de Clubes.

Tudo isso em apenas cinco anos.

Era um time regional quando começou a planejar as conquistas, passo a passo. Chegou à Série D (quarta divisão), pulou para a C (terceira), garantiu a vaga na B (segunda) na campanha de 2012 e foi um dos quatro classificados para a primeira divisão em 2013, com uma temporada vitoriosa e surpreendente até para seus torcedores. Muitos acreditavam que o time fazia apenas um estádio na segunda divisão antes de consolidar o acesso à elite do futebol brasileiro.

Mas já então a competência do clube começava a conquistar o país.

Nos três anos de Série A, a Chapecoense sempre era incluída por alguns analistas como um dos prováveis rebaixados – e a cada ano, já no meio do campeonato, contrariava as previsões com campanhas seguras. Foi assim neste 2016 de tantas tragédias.

A Chapecoense chegou a 52 pontos ganhos, a três apenas do grupo da Libertadores – e, de quebra, estava na decisão da Sul-Americana.

Como fez tanto, com tão poucos recursos e em tão pouco tempo?

Sugeri há poucos dias, ao participar do Seleção Sportv no dia da primeira decisão entre Grêmio e Atlético, que alguns clubes deveriam mandar observadores a Chapecó para descobrir como se pode fazer futebol sem crises e com competência.

A Chapecoense descobriu a fórmula. Tem um orçamento realista, enxuto, de apenas R$ 45 milhões para a atual temporada, por exemplo, como revela o repórter Sérgio Rangel, na Folha desta terça. Compare com os grandes clubes.

Com uma administração formada por empresários, o clube define o orçamento e, rigorosamente, basta apenas dentro de seus limites. Não há dívidas.

Os jogadores são contratados com base em critérios rigorosos de avaliação e, quando acertam, sabem que receberão salários sem atrasos, de 15 em 15 dias, com direito até a um 14º salário. Mantém uma base de comissão técnica permanente, da qual fazia parte Anderson Paixão, preparador físico, filho de Paulo Paixão, e uma das vítimas da tragédia.

Ao longo da temporada, o clube faz uma conta poupança usada como segurança para evitar atrasos e dívidas.

Até o futebol do time segue um padrão desde o início, independentemente do técnico.

É o mesmo jeito de jogar, com ligeiras variações, competitivo, organizado, capaz de tirar grande vantagem de seu bom estádio. Este ano, sob a liderança do experiente Cléber Santana em campo e do técnico Caio Júnior fora dele, subiu um pouco mais ainda e garantiu classificação à decisão da Sul-Americana, depois de chegar perto também no ano passado com Guto Ferreira. Perdeu para o grande River Plate por um gol.

Virou paixão de uma cidade, até por ser o único time, ganhou apoio da Prefeitura (mas sem verbas oficiais que, segundo os dirigentes, devem ser destinadas a programas sociais e não ao futebol), virou um caso de sucesso no futebol brasileiro.

Agora, o clube está diante de seu maior desafio – o de superar um trauma arrasador como o deste acidente e buscar forças para reagir.

 

 

 

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Sobre mariomarcos

Jornalista, natural de criciúma, fã incondicional de filmes, bons livros e esportes
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11 respostas para Chapecoense: o trauma em meio a uma história de sucesso

  1. Ricardo - DF disse:

    Soube agora a pouco e ainda estou em estado de choque. Como pode, no melhor momento do clube, uma tragedia dessas? Quantas pessoas conhecidas que se foram ? Que tristeza…

  2. Maurício disse:

    Quando o Xavante sofreu aquele terrível acidente em 2009, também vinha em promissora ascensão. Mesmo tendo sido rebaixado após negar a licença oferecida pela FGF, recuperou-se em tempo recorde e, poucos anos depois, confirmou o excelente momento.
    Espero que o mesmo ocorra com a Chape: que, após o inevitável e doloroso processo de luto, as feridas cicatrizem o mais rápido possível e esse espírito vencedor coletivo volte a erguê-los no cenário do futebol sul-americano. O clube merece.

  3. juliocolbeich disse:

    Terrível, quantas vidas perdidas, famílias destroçadas. Muito tempo até a cidade se recuperar se é que é possível. Muito triste.

  4. CAMPEÃO DE TUDO disse:

    Sem palavras =(

  5. Fred O Calmo disse:

    Viram que o Atlético Nacional propôs que o título seja entregue à chape?

  6. Papa Charlie disse:

    Realmente uma lástima. Como se reerguerá um clube depois de uma tragédia dessas?! Lembro bem do São Caetano, após a morte súbita do zagueiro em campo, só afundou. Ouvi em uma rádio que até hoje responde a processos por isso. Vejo solidadriedade por toda a parte e de toda monta. Mas perdas humanas são profundas demais para serem amenizadas, de qqer forma ou de qqer maneira. :/

  7. 66 disse:

    Não há o que dizer.
    Triste final de ano para o futebol brasileiro e mundial.

  8. 66 disse:

    Alguém já disse que acidentes aéreos são causados por uma cadeia de erros que culminam com a tragédia. Não são fatos isolados.
    Ao que tudo indica, o avião não era apropriado para o tamanho do percurso, já que sua autonomia de voo era praticamente igual à distância entre as cidades. No áudio o piloto avisa que o combustível acabou. Quase certo que houve falha do piloto que era também o dono da aeronave.
    Que barbaridade.

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