O repórter que desceu ao inferno de Treblinka

ReproduçāoVassili Grossmann esteve ao lado dos soldados soviéticos nas trincheiras de Stalingrado, enquanto eles resistiam ao cerco alemāo. Sentiu de perto a fome, o frio, o sofrimento da populaçāo. Quando o exército soviético reagiu, dominou a poderosa máquina de guerra de Hitler e avançou em direçāo a Berlim, ele foi junto como um grande repórter deve fazer. Seus relatos foram publicados nos jornais do Exército Vermelho e nas páginas de um dos grandes livros sobre o conflito –  Um Escritor na Guerra -, um dos raros que conta em detalhes a história de um lado decisivo da vitória sobre o nazismo.

Judeu ucraniano, ele viu o holocausto de perto. Perrdeu a māe em um destes massacres e, na caminhada rumo a Berlim, viu a libertaçāo dos campos de concentraçāo e sentiu de perto o horror dos crimes alemāes. Destas experiências, lançou uma das obras-primas da literatura, Vida e Destino, livro que ficou décadas escondido e só pôde ser publicado, já nos anos 60, porque um de seus amigos guardou cópia dos originais. A polícia soviética nāo gostou do texto que nāo poupava os crimes de Stálin e vetou a publicaçāo naqueles duros anos de expurgos.

Grossman deixou também uma série de textos menores, publicados em jornais e revistas ou simplesmente reunidos em seus arquivos. Alguns deles estāo neste imperdível A Estrada (Objetiva). Grossman fala do dia a dia, da rotina e do sofrimento de personagens abalados pela guerra, da crueldade dos nazistas, mistura realidade e ficçāo e nos dá um quadro preciso do absurdo daqueles tempos, como o dia em que Weintraub, o médico da cidade, judeu, foi chamado com urgência para salvar a vida do comandante nazista – o mesmo que estava liderando o massacre de vizinhos, parentes e amigos. Werner, o oficial nazista mostrado em O velho professor nāo sabia quem era o médico.

“(…) Nāo existe no mundo nada mais terrível, sombrio e horrendo que a morte, como é injusto sermos mortais! Nāo acha?

Estavam sozinhos no quarto.

Weintraub inclinou-se até o comandante e, sem saber por que, disse, como se alguém o empurrase:

– Sou judeu, senhor major. O senhor está certo, a morte é horrível.

Seus olhos se encontraram por um instante. E o mëdico grisalho viu a confusāo nos olhos do comandante. O alemāo dependia dele, femia um novo ataque, e o velho médico de movimentos seguros e tranquilos defendia-o da morte (…)”

Todos os textos reunidos no livro sāo acompanhados de explicaçōes sobre o contexto de cada um, como Vassili Grossman chegou a eles, seus abalos pessoais ao mergulhar em algumas da maiores atrocidades da história. Só o texto O Inferno de Treblinka vale por um livro inteiro. Quando o exército soviético e Grossman chegaram ao campo de concentraçāo, conheceram a barbárie de perto. Grossman enfrou no campo em agosto de 1944, viu o local, examinou em detalhes a máquina de destruiçāo nazista, conversou com testemunhas e vizinhos, recuperou defalhes que os alemāes tentaram esconder e publicou o relato em setembro, um mês depois. O que se lê no texto O Inferno de Treblinka é aterrador.

Grossman nāo fala apenas de crueldade. Há espaço para a amizade, a suave convivência entre amigos, a paixāo que surge mesmo em meio de conflitos diários, a capacidade de resistência do ser humano.

É outro daqueles livros de que você nunca mais vai esquecer.

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Sobre mariomarcos

Jornalista, natural de criciúma, fã incondicional de filmes, bons livros e esportes
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Uma resposta para O repórter que desceu ao inferno de Treblinka

  1. Kikomarques disse:

    Costumo dizer que uma grande história é formada por várias histórias. A Segunda Guerra Mundial é um bom exemplo disso. São muitas as histórias que aconteceram dentro da história desta guerra.

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