O livro que nos leva para o meio da Guerra do Vietnã

Michael Herr (13/4/1940 – 23/6/2016) é daqueles insuperáveis correspondentes de guerra que nunca aceitaram ver o conflito de longe, no conforto de uma sala do comando ou na segurança de um bunker qualquer, como muitos fizeram na cobertura de video game do Iraque, só para ficar em um episódio recente. A exemplo de outros de sua escola de jornalismo, ele participava de tudo e vivia o dia a dia dos conflitos. Foi assim que  escreveu Despachos do Front, aquele é considerado por muitos críticos como o melhor relato de guerra de todos os tempos. Uma lição que permanece atual, apesar de tratar da já distante Guerra do Vietnã.

Sou daqueles que não resistem ao ver a citação de um livro em meio à leitura de outro. Vou logo pesquisar sobre ele. Foi assim ao descobrir Despachos do Front (Objetiva). Consegui um exemplar – com trechos devidamente marcados com caneta laranja pelo leitor anterior – no site da Estante Virtual. Foi um acerto. Michael Herr nos transporta para o ambiente sufocante daquele período, nos leva a acompanhar o sofrimento da população, as florestas destruídas por napalm, os traumas dos soldados e suas sequelas, o risco presente a todo momento, as brincadeiras mesmo em meio a bombardeios, a insanidade da ação dos governos. Michael Herr (que participaria depois do roteiro dos clássicos Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, e Nascido para Matar, de Stanley Kubrick) está lá, nas trilhas ou nas trincheiras, ouvindo as conversas de jovens de origens diversas, suas gírias, fumando, bebendo e se drogando com eles, mostrando personagens tão doentios que se orgulhavam de colares feitos das orelhas de soldados norte-vietnamitas mortos. E vendo o sofrimento da população de perto.

“Os repórteres perguntaram a um artilheiro dos helicópteros como é que ele podia matar mulheres e crianças?”, conta Michael Herr em um dos capítulos. “E ele respondeu: ‘É fácil. Eles não precisam de muito chumbo”.

Um dia, durante um deslocamento, Michael Herr resolveu caminhar de um posto de observação a outro. Quando corria pela trilha, viu que soldados que estavam no lugar para onde ia passaram a gesticular, a gritar e a rir, sadicamente. Quando chegou lá descobriu por que estavam agitados: ele acabara de cruzar por uma trilha coberta de minas instaladas pelos próprios norte-americanos como barreira de defesa aos ataques dos inimigos. Tudo isso ouvindo The Who, Doors, Jimmy Hendrix, cuja guitarra ele descobriu – e pela qual se apaixonou – ao ouvir os solos no pequeno gravador de um companheiro de trincheira.

Despachos do Front é daqueles livros que nos conquistam da primeira à última linha. É um documento precioso sobre uma época em que a imprensa e as imagens de TV trouxeram a guerra para a sala de cada um – e abalaram, como nunca, a relação de jovens estudantes norte-americanos com seus próprios governantes.

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Sobre mariomarcos

Jornalista, natural de criciúma, fã incondicional de filmes, bons livros e esportes
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Uma resposta para O livro que nos leva para o meio da Guerra do Vietnã

  1. Niederauer disse:

    Valeu, MM.
    Anotado, como, aliás, faço desde o saudoso “Sala de Leitura”.
    Eu também tenho esse hábito de “investigar” a bibliografia.Exemplificando: Pegar o “Camaradas” do William Waack, que me levou ao “Vida de um revolucionário do Agildo Barata”, que me levou aos livros do Hélio Silva, todos sobre os episódios de Novembro de 35 no Brasil.

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