Como o estrangeiro vai entender um Português assim?

Recebi um texto que faço questão de dividir com vocês. Ele brinca, criativamente, com as dificuldades que alguns estrangeiros têm de entender certas sutilezas do nosso Português de cada dia.

Como estamos com competições internacionais batendo à porta (Copa das Confederações no fim do semestre, Mundial de 2014, Jogos Olímpicos de 2016), vale a pena curtir o diálogo entre um recepcionista brasileiro e um africano recém chegado a Fortaleza.

Vamos a ele:

Na recepção de um salão de convenções, em Fortaleza

- Por favor, gostaria de fazer minha inscrição para o Congresso.

- Pelo seu sotaque vejo que o senhor não é brasileiro. O senhor é de onde?

- Sou de Maputo, Moçambique.

- Da África, né?

- Sim, sim, da África.

- Aqui está cheio de africanos, vindo de toda parte do mundo. O mundo está cheio de africanos.

- É verdade. Mas se pensar bem, veremos que todos somos africanos, pois a África é o berço antropológico da humanidade…

- Pronto, tem uma palestra agora na sala meia oito.

- Desculpe, qual sala?

- Meia oito.

- Podes escrever?

- Não sabe o que é meia oito? Sessenta e oito, assim, veja: 68.

- Ah, entendi, meia é seis.

- Isso mesmo, meia é seis. Mas não vá embora, só mais uma informação:
a organização do Congresso está cobrando uma pequena taxa para quem quiser ficar com o material: DVD, apostilas, etc. Gostaria de encomendar?

- Quanto tenho que pagar?

- Dez reais. Mas estrangeiros e estudantes pagam meia.

- Hmmm! que bom. Ai está: seis reais.

- Não, o senhor paga meia. Só cinco, entende?

- Pago meia? Só cinco? Meia é cinco?

- Isso, meia é cinco.

- Tá bom, meia é cinco.

- Cuidado para não se atrasar, a palestra começa às nove e meia.

- Então já começou há quinze minutos, são nove e vinte.

- Não, ainda faltam 10 minutos. Como falei, só começa às nove e meia.

- Pensei que fosse às 9h05min, pois meia não é cinco? Você pode escrever aqui a hora que começa?

- Nove e meia, assim, veja: 9h30min.

- Ah, entendi, meia é 30.

- Isso, mesmo, nove e trinta. Mais uma coisa senhor, tenho aqui um
folder de um hotel que está fazendo um preço especial para os
congressistas, o senhor já está hospedado?

- Sim, já estou na casa de um amigo.

- Em que bairro?

- No Trinta Bocas.

- Trinta bocas? Não existe esse bairro em Fortaleza, não seria no Seis Bocas?

- Isso mesmo, no bairro Meia Boca.

- Não é meia boca, é um bairro nobre.

- Então deve ser cinco bocas.

- Não, Seis Bocas, entende, Seis Bocas. Chamam assim porque há um
encontro de seis ruas, por isso seis bocas. Entendeu?

- E há quem possa entender?

About these ads

Sobre mariomarcos

Jornalista, natural de criciúma, fã incondicional de filmes, bons livros e esportes
Esse post foi publicado em Gente e marcado , , , . Guardar link permanente.

14 respostas para Como o estrangeiro vai entender um Português assim?

  1. Marcus disse:

    Eh eh
    Morei alguns anos em Fortaleza. Lembro da primeira vez que fui ao centro da cidade e pedi uma informação.
    Não entendi absolutamente nada. Alguns meses depois acostumei o ouvido e aprendi os termos por lá usados.
    Temos alguns países dentro de um grande chamado Brazil…

  2. marcos gaúcho de BSB disse:

    Como piada é engraçado, mas a rigor o recepcionista não falou português errado, apenas usou expressões que fazem parte da nossa língua. Acho até que o meia “seis” existe em outras línguas, assim como meia “hora”. Claro que o ideal é ser o mais concreto possível com o estrangeiro que, geralmente, não saberá falar português.

    Eu conheço uma história real com essa coisa de nós, gaúchos, chamarmos o horário de 12h30 de “meia hora”. Um colega meu daqui do DF estava a trabalho em Porto Alegre e resolver fazer o passeio no Guaíba, aquele do Cisne Branco (?). Acho que era umas dez da manhã e ele perguntou que horas sairia o barco. O atendente disse “Sai à meia hora”. Trinta minutos depois, ele voltou, esperando que estivesse no horário, mas ouviu a mesma informação. Voltou outra vez, até que explicaram que “meia hora” era meio dia e trinta.
    Coisas do nosso Brasil continental, com nossos múltiplos sotaques e dialetos.

  3. Tomaz disse:

    Eu penso em um estrangeiro com a cabeça cheia de cerveja na fila do check in em Congonhas esperando a 1 hora e passa um atendente da Gol e grita “Fortaleza três e meia, Fortaleza três e meia”. Alguém acha que o cara vai entender algo??? Ele irá conseguir pegar o voo??? Qual sua reação ao finalmente chegar ao check in e saber que ele chegou 1 hora antes como recomendado, permaneceu o tempo todo na fila e seu voo já saiu e a atendente dirá: “mas o senhor não ouviu chamando para o voo?”

  4. Junior Vidarte disse:

    Por ter morado em países luso-africanos e em Portugal segue o texto abaixo:

    Objetivo: colocar um chip no celular

    – Oi gostaria de um chip para meu celular.
    – Celular?
    – sim, o meu!
    – ah…o sr. quer um chip para o móvel..
    – Sim..pode ser, já aproveita e coloca crédito
    – Crédito, não trabalhamos com cartão de crédito.
    -Não….quero poder ligar..telefonar..
    – a sr. quer colocar saldo.
    – Sim , isso pode ser, saldo!
    – mas não é aqui.
    – onde é?
    – é naquela bicha ali.
    . bicha?
    – sim aquela bicha, onde está aquele puto.

    Isso é português, e não é piada.
    Bicha: fila, Puto: menino.

  5. Lyah disse:

    Muito bom adorei. Assim como gostei da do Junior vidarte também.
    Adorei o blog

  6. agomes disse:

    Esse negócio – os eventos – vai ser um fuzuê, em Manaus, p.ex. “bala” (doce) é “bombom”, o termo em si, é entendido como as de revolver, já o cearense, ao menos na Capital,onde tbém morei, num diálogo “masculino”, tem mania de encerrar frases (como no caso, do “tchê”, ou do “uai”) com sonoro “macho” (“-né isso não, macho!!”), e por aí vai, fora os sotaques, mas vai ter também a questão climática e o andamento da Copa, que provoca mudanças de cidades a partir dos mata-mata, isto em junho-julho, quando mais da metade do País se mantem na faixa dos 22 graus e faixa mais abaixo fica nos 10 ou menos, imagina holandeses ou alemães ganharem um mata-mata em Cuiabá ou Recife e disputarem o seguinte em POA ou Ctba.

  7. Cesar disse:

    Levam nosso minério, nossas mulheres, nossa comida, depositam resíduos tóxicos em nossa terra, destroem nossa economia, mudam nossa cultrura, etc… Querem mais?
    Querem mudar nossa linguagem e expressões? Desculpem , não me fazem falta!Prefiro o Brasil(com s) para os brasileiros!

  8. Paulo Juliano disse:

    Fora do Tópico, vale ressoar o exemplo da Argentina, onde lugar de ditar é atrás das grades, que o diga Reynaldo Bignone.

  9. Jansen Viana disse:

    Sinto-me lisonjeado por postar meu texto em seu blog, mas peço a gentileza de citar a autoria. Esse texto faz parte do meu livro “Prosando” publicado pela Editora Reflexão.

    http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/4001596

    Grato,
    Jansen Viana

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s