Servente de pedreiro, cotista, futuro engenheiro

O texto a seguir fala de uma daquelas vitórias pessoais com força para comover.

É o depoimento de uma professora sobre um de seus alunos pobres que, beneficiado pelos programas de acesso à universidade, hoje cursa engenharia, está perto de ser contratado como estagiário por uma empresa e, ao contrário do que muitos dizem, o fato de ser cotista não prejudicou seu rendimento nem diminuiu o nível de qualidade da universidade. Pelo contrário, ele tem um desempenho excelente – o que nem chega a ser novidade nestes alunos beneficiados pelos programas de inclusão, como confirmam as pesquisas das próprias instituições de ensino superior.

Li este depoimento no blog do jornalista Luis Carlos Azenha e decidi compartilhá-lo com vocês, já que muitas vezes debatemos o assunto aqui mesmo.

Leiam então o que Luana Tolentino escreveu para o Viomundo:

“Há anos sofro com constantes crises de enxaqueca. Ontem, por exemplo, passei a tarde inteira trancada num quarto escuro sem conseguir ao menos abrir os olhos, tamanha a minha dor.

Para aumentar o meu calvário, estava sozinha em casa quando o telefone tocou. Pensei em não atender: poderia ser, sei lá, uma operadora de telemarketing da editora Abril tentando me vender a todo custo uma assinatura da Veja. Por outro lado, imaginei que pudesse ser alguém querendo dar uma notícia importante, urgente. A segunda opção falou mais alto. Com a sensação de que minha cabeça pesava uma tonelada, levantei para atender a ligação. Todo o meu esforço valeu a pena! Era o Ronie, um ex-aluno que tive o privilégio de dar aulas no ano passado.

Ronie me proporcionou uma das maiores alegrias de toda a minha vida! Aluno exemplar, tive a oportunidade de vê-lo ingressar na Universidade por meio do programa de Ações Afirmativas da ONG Educafro, em parceria com o Centro Universitário de Belo Horizonte, tradicional instituição de ensino superior de Minas Gerais. Aprovado no vestibular, Ronie ganhou uma bolsa de estudos e hoje cursa Engenharia Elétrica.

As notícias não poderiam ser melhores. O garoto de 18 anos acabou de concluir o primeiro dos 10 períodos necessários para se graduar na área que escolheu. Ronie contou que suas notas foram excelentes, variaram entre 80 e 90 pontos em cada disciplina. Após algumas entrevistas, ele está na expectativa de ser contratado como estagiário por uma grande empresa de construção civil. Segundo Ronie, os pais estão muito orgulhosos do filho caçula. O primeiro da família a cursar uma faculdade.

Ao ouvi-lo falar com tanto entusiasmo dessa nova etapa de sua vida, a professora aqui não se aguentava de tanta felicidade! Vibrava como se fosse eu a caloura. Ronie falou ainda que  matriculou-se num curso de inglês e já faz planos para fazer um intercâmbio. Contou dos novos amigos, das festas e dos churrascos promovidos pela turma. Com a autoridade de quem carrega no currículo inesquecíveis aventuras etílicas nos tempos do curso de História, aconselhei-o:  Fique longe dos botecos hein, rapaz?! Uma gargalhada sonora se fez nos dois lados da linha, que só foi interrompida quando ele perguntou:

– Professora, a senhora já imaginou, eu deixar de ser servente de pedreiro e virar engenheiro?!

Emudeci. Às vezes os alunos esquecessem que nós professores nem sempre temos as respostas na ponta da língua. Embora parecesse simples, naquele instante fui incapaz de responder à pergunta do futuro engenheiro. Sem compreender o motivo do meu silêncio, Ronie insistiu:

– Professora? A senhora tá me ouvindo?

Respondi com um sim meio engasgado. Não consegui dizer nada além disso. Nos despedimos com a promessa de que em breve eu teria mais noticias boas. Ao desligar o telefone, lamentei o fato de ter respondido à pergunta de forma monossilábica. Mas, hoje, ja refeita e consciente da magnitude da mudança que está em curso na vida do meu ex-aluno, telefonei e disse que vejo nele um engenheiro bem-sucedido, feliz, realizado. Disse ainda que se em algum momento alguém tentasse negar a sua alteridade ou duvidasse de sua capacidade, que seguisse em frente, de cabeça erguida, na certeza de que possuir um diploma universitário é um direito que ele tem.

Ronie se junta às centenas de jovens negros que, desde 2003, quando o sistema de cotas foi implantado de forma pioneira na UERJ, tiveram a oportunidade de ingressar no ensino superior, e assim criar possibilidades reais de combate à vergonhosa desigualdade racial existente entre brancos e não-brancos no Brasil. Ele corrobora com as estatísticas que atestam que estudantes cotistas tem rendimento igual ou superior ao dos demais alunos, desmistificando a teoria defendida por muitos de que esse tipo medida reparatória provocaria a queda da qualidade dos cursos.

Num país em que apenas 4% da população negra está matriculada em instituições de ensino superior, Ronie é mais um exemplo da eficácia das cotas como instrumento de reversão do quadro de injustiça no qual se encontra a população afro-descendente. Em artigo publicado em 2007, o antropólogo Kabengele Munanga é categórico ao dizer que experiências realizadas em outros países mostram que este tipo de medida propicia dentre outros benefícios, a maior representatividade de negros em espaços majoritariamente ocupados por brancos e uma visível mobilidade socioeconômica. Com a aprovação da Constitucionalidade das cotas pelo Supremo Tribunal Federal (10X0!!!!!!!) em abril passado, a expectativa é que aumente o número de universitários negros, principalmente em instituições públicas, e que exemplos como os do Ronie se multipliquem pelo país.

Ronie alimenta as minhas esperanças de que um Brasil mais equânime no que diz respeitos as relações raciais e sociais é possível, ainda que o caminho a ser percorrido seja longo, difícil, tortuoso. A corrente contrária aos programas de ações afirmativas é grande, o que era de se esperar num país extremamente racista como o nosso. Mas, tudo bem. Por ora, pouco me importa os que, embriagados pelo mito da democracia racial, insistem em dizer que cotas são esmolas, ou como disse um famoso jornalista, que elas “são uma ameaça concreta ao nosso convívio “harmonioso””. Agora, só me interessa comemorar com todo ardor esse momento único. Muito!”

Luana Tolentino: mulher, negra, canhota, gêmea univitelina

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Sobre mariomarcos

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50 respostas para Servente de pedreiro, cotista, futuro engenheiro

  1. alexandreehlers disse:

    A história é ótima e espero que se repita como regra e não seja exceção.
    Mas ainda acho que não deveríamos (Brasil) fazer cotas por cor da pele. Isso pode fazer crescer algo que não temos no Brasil, que é a raiva, a intolerância de brancos/ quase brancos pobres por negros tão somente pela cor da pele. Cotas por renda abrangeriam todas as pessoas necessitadas sem gerar divisões por cor de pele.

    • Clóvis disse:

      E os ricos e a classe média alta, que fazem a maioria nas Federais, que não fossem proibidos disto, mas que ‘bancassem’, pelo menos, 70% do curso para viabilizar aos mais pobres a frqüência às mesmas universidades. Isto sim, seira justiça social.

      • Guilherme Lajeado disse:

        Sou a favor que o recurso investido no Ensino Superior, em grande parte, fosse redirecionado a ensino fundamental (principalmente) e médio, universalizando o acesso. Já o ensino superior deveria ser pago, com bolsas àqueles com mérito ao longo de toda a vida escolar, que comprovassem não possuir REALMENTE condições de pagar a faculdade. Assim tu daria iguais condições iniciais a todos e premiaria os mais competentes a seguir até o ensino superior.

        E como opção ao ensino superior, deveria haver escolas técnicas, que já preparassem pessoas para o mercado de trabalho a partir do ensino médio (como é comum em países da Europa!).

      • Glaucio Missioneiro disse:

        Perfeitas idéias, Clóvis e Guilherme.

  2. Só pra não deixar passar batido, vou deixar minha opinião contrárila a esse sistema que privilegia pessoas pela cor da pele, ou seja, é uma discriminação ao contrário… Logo, quem estuda e faz por merecer uma vaga, não entra mesmo que tenha obtido ótima média. Isso ocorre também nos concursos públicos que chega ao cúmulo agora de quererem (leia-se MPF) que haja vagas para deficientes no concurso da PF. Um policial deficiente correndo atrás de bandido ou entrando em luta com ele, já imaginaram? Só no Brasil… E não me venham com essa de funções administrativas, para isso há que se contratar agentes administrativos e não policiais. Bem, já falei demais.

  3. Guilherme Lajeado disse:

    Ao ler a assinatura eu fiquei pensando o que falariam se alguém assinasse assim o texto: FULANO X, HOMEM, BRANCO, DESTRO.

    De qualquer forma o texto traz um exemplo, no caso um bom exemplo pró “ações afirmativas” (não creio ser sobre cotas!).. Mas eu sempre desconfio da “boa ação” da autora, ainda mais quando de alguma forma, sem necessidade alguma!, se cita pejorativamente a Veja/Abril, mesmo que numa simples menção de tele marketing…

    Enfim, ainda sou contra as cotas por cor da pele, acho que a saída, mesmo que seja de longo prazo é o investimento maciço em educação primária. Só assim se dará oportunidades iguais (o parecidas) a todos, desde o início do processo. Creio ser a forma mais justa, não prejudicando (e nem favorecendo) ninguém por alguma característica que, de fato, não deveria diferenciar ninguém.

  4. Jefe disse:

    Brodbeck, você mesmo comentou suas próprias asneiras: falou demais. Um país decente precisa ter sistemas para integrar em todos os níveis de serviço público os grupos sociais que esse mesmo país excluiu de qualquer representação política. Parabéns ao Mario Marcos por divulgar a história, parabéns principalmente aos, segundo Brodbeck, “privilegiados”.

    • Guilherme Lajeado disse:

      A integração não precisa ser necessariamente via cotas e tão pouco prejudicando outros que em nada tem a ver com a exclusão histórica.

      Há quase sempre uma distorção e muitos se aproveitam disto (alguns até se acham no direito de chamar a simples opinião discordante de “asneira”…). O fato de a pessoa ser contra cotas não significa que ela não prega outra alternativa. É o método de se fazer isso que se questiona, na maioria das vezes.

      • Jefe disse:

        Guilherme, você pode relativizar à vontade. Eu prefiro dar nome aos bois: asneira é asneira. Previa argumentos como o teu, tal e qual, assim que li o post. Dito e feito. Está na hora de complexificar esses discursos prontos. Quanto ao teu argumento: a melhoria do ensino fundamental é a principal reivindicação dos movimentos cotistas. Dizer que as cotas “prejudicam” outras pessoas revela o ponto de vista do qual você fala, pois a não existência de cotas prejudica negros e pobres. Logo, qual é o ponto? Simples: você e outros por aí defendem a universidade para estudantes brancos de escolas particulares. Muito bem. Democracia é assim, os interesses aparecem e as posições começam a se definir. Mas, por favor, chega dessas asneiras em prol da “igualdade”. Diga o que você pretende claramente: eu, Guilherme, defendo que os brancos de escolas particulares não sejam “prejudicados” pelos negros e pobres. Fica mais honesto assim e evita o tom ressentido que você e Brodbeck usaram.

      • Guilherme Lajeado disse:

        Meu caro,
        Eu prefiro oportunidades iguais (ou parecidas, na medida do possível) a todos no INÍCIO. Independente da cor, raça, posição política e etc. Igualando-se as oportunidades, se fará a JUSTIÇA que tanto almejam.

        E o que eu penso eu digo, da forma que achar conveniente. Não preciso que tu tente definir o meu ponto de vista, sem nem mesmo ter base para isso. Fale por ti que eu falo as minhas “asneiras” por mim, afinal, só a tua opinião, pelo visto, é a correta.

      • Jefe disse:

        Guilherme, exatamente. Você percebeu bem: o correto é ser a favor das cotas. Não há relativizar nisso. No mais, igualdade não é conceito abstrato, precisa ser compreendida no funcionamento real da sociedade, nas relações tal como acontecem. Eu sou negro e – depois das cotas – estudo em uma turma na universidade pública na qual há mais um negro, além de mim. Dois negros numa turma de 60 alunos. Num país em que há mais de 60% de pardos ou negros. Isso é igualdade? Nos colégios particulares, que aprovavam, antes das cotas, mais de 70% dos ingressos na universidade pública, a porcentagem de alunos negros é menor do que 3%. Isso é igualdade? Portanto, quando você fala igualdade, sou eu, sim, negro, pobre, estudante universitário, sou eu e aqueles que são como eu os que podem dizer quem você defende na universidade e quem você quer fora da universidade. Que você se irrite com isso, não me causa surpresa. Ser colocado frente à frente com as consequências das próprias ideias nem sempre é confortável, ainda mais quando a sua autoimagem é a de um defensor da igualdade, mas a sua posição efetiva é a de um ressentido conservador de privilégios.

      • Guilherme Lajeado disse:

        Já entendi teu conceito de justiça. O que te favorece é justo. Os pobres, estudantes de escola pública e ‘BRANCOS’? Ah, esses que se virem, afinal a cota é racial!

        Eu posso simplesmente chamar de “arneira” o que tu fala (que é como tu trata a discordância), afinal tu só está defendendo o TEU interesse (a não ser que tu me prove o contrário, quem sabe abrindo mão da tua vaga para outro negro mais pobre que tu!). Comece dando o exemplo e fazendo justiça SEM INTERESSES particulares. É a forma mais nobre de defender uma causa!

        A igualdade meu amigo, não é RELATIVA com tu acha, a igualdade só existe quando ela é JUSTA, do início do processo ao fim! E é isso que eu prego, sem motivos para me envergonhar ou me irritar com isto, muito pelo contrário.

  5. MARCOS - AM disse:

    Parabéns ao Ronie!
    Que histórias como esta, especificamente como esta, continue se repetindo.
    Pelo que pude observar nas palavras do texto, o aluno Ronie foi aprovado no vestibular e, em uma ação afirmativa “de uma ONG”, foi agraciado, também pelo seu desempenho, Com uma bolsa de estudos, que mudou sua vida.
    Não se trata de uma ação afirmativa que desconsidera o mérito individual de uns em função da cor, ou ausência de cor em sua pele. E sim propiciar aqueles que demonstraram merecimento um apoio para que continue em frente.

  6. Glaucio Missioneiro disse:

    Eu acho que esse sistema de cotas pra negros acaba por discriminar ainda mais eles.

    Dá a entender que por ser negro, não teria condições de ser aprovado se concorresse em igualdade com brancos.

    Tem muito branco pobre também, que não tem como pagar cursinho, e tem que trabalhar pra ajudar em casa, e mesmo assim consegue entrar em universidades federais.

    Assim com também existem negros em famílias bem sucedidas, com condições de estudar em escolas e cursos particulares.

    Tive amigos que estudaram a vida inteira em escola pública, assim como eu, que deixaram de fazer festa ou passaram as tardes de sábado estudando, enquanto outros estavam jogando bola ou se divertindo, e que não conseguiram entrar no curso da Federal que queriam justamente devido as tais cotas pra negros. Isso é igualdade pra todos?

    Quer entrar na faculdade? Estuda, abdica de coisas hoje pra colher frutos melhores amanhã.

    Conheço muitos negros que não precisaram das tais cotas, não são poucos os exemplos.

    • Glaucio Missioneiro disse:

      Ah,
      Glaucio Wianey Silva, homem, destro, ex-vendedor de revista do Centenário do Grêmio, ex-empacotador de supermercado, ex-cabo eleitoral político, ex-estudande de escola pública até concluir o ensino médio, Contador formado a 3 anos.

    • mariomarcos disse:

      Como já disse, não há apenas as cotas. Há os programas sociais de inclusão nas universidades que beneficiam todos os que são prejudicados nesta corrida pelo ensino. Aliás, há bem pouco o Supremo considerou constitucionais todos estes programas.

      • Glaucio Missioneiro disse:

        Tô nem aí pro que o STF considera, tenho meu próprio senso de justiça.

      • mariomarcos disse:

        Eu também, mas tenho a impressão de que os ministros do STF entendem muito mais do que é constitucional do que qualquer um de nós.

      • Guilherme Lajeado disse:

        Tem que ver o que a CUT acha da decisão do STF… Se for contrário aos interesses, vamos às ruas protestar!

      • Luiz Martini disse:

        Bem, Mário, é uma pena que a gente não possa dizer que o STF é uma Instituição respeitável, imparcial, apolítica…
        Um órgão que já teve o bandido Gilmar Mendes como presidente, me diz tudo desse órgão.

      • mariomarcos disse:

        Não estou defendendo o STF, até porque ele também prejudicou minha categoria com uma decisão que o Congresso está tentando reverter. Só disse que aqueles homens lá, por mais restrições que a gente faça a eles, entendem mais do que é constitucional do que nós. Apenas isso. É que alguém insistiu que a decisão era inconstitucional e eu lembrei isso. Nada mais.

    • Luiz Martini disse:

      Parabéns, Missioneiro.
      Nos dedos!
      Mas os de “idéia diferente” não vão reconhecer.

  7. lfblog disse:

    Sou completamente contra COTAS RACIAIS
    existe pobres e carentes em todas as raças
    isso na minha opinião é inconstitucional e agride a constituição da republica ,mesmo que eles tenha oficializado isso

    • mariomarcos disse:

      Os programas sociais de inclusão beneficiam todos os níveis, não apenas pelas cotas.

      • Luiz Martini disse:

        Mário, continuas teimando com as evidências.
        Se podemos adotar políticas de cotas SOCIAIS, que obrigatoriamente incluirão os negros, para que precisamos de cotas RACIAIS?
        Cada vez que alguém aqui discorda das cotas RACIAIS, tu respondes que existem os programas de inclusão etc etc etc.
        Qual a razão para que existam as duas coisas?
        Por que não pode ser um programa ÚNICO de inclusão SOCIAL?

  8. Real Fábio - Colorado disse:

    Boa tarde a todos, sou contra qualquer tipo de cota, seja racial ou social, mas sou a favor de um investimento maciço em educação, com escolas públicas que não fiquem devendo nada as particulares, vagas para todos (sem distinção), turno integral (manhã e tarde), salário digno ao corpo docente, fim do vestibular, com os melhores alunos ingressando nas melhores universidades (elas disputando os melhores alunos), avaliações sistemáticas de todas as escolas em todos os níveis, premiação aos professores por desempenho e várias outras “idéias” que visam integrar e colaborar para o crescimento dos “brasileirinhos”.
    Como frisaram em comentários acima, deveria-se também investir em escolas técnicas, diga-se de passagem, hoje pode-se afirmar que técnicos são mercadoria rara no mercado.
    Mas vagas por cor de pele ou classe social não deveria existir, não adiante me argumentarem que o dia que isto acontecer (investimento maciço em educação) extinguem-se as benesses.

    • mariomarcos disse:

      Eu sou completamente a favor, como já escrevi aqui.

    • ZAMORA disse:

      Gostaria que todos os brancos que são contra as Cotas, virassem negros .
      Aí eu queria ver se não mudariam de opinião.

      • Não, Zamora, eu não mudaria de opinião. Porque minha consciência não está à venda por algumas vagas nas universidades. O que o Real Fábio – Colorado falou acima cala todo e qualquer argumento cotista. Por isso sua resposta e a do Mário foram evasivas.
        Só existe medida séria e responsável em relação à educação com investimento forte desde o primário.
        Só que o governo não quer gastar com isso e, pior, teme que um povo consciente vote mais consciente. Isso significa não votar nos autores dessas medidas eleitoreiras que dividem tão facilmente o povo. Um povo dividido é mais fácil de controlar. Nós, anti-cotistas, estamos tentando fazer algum sentido nisso tudo, mas é mais fácil para os cotistas jogar pedras e acusar os outros de “racistas”, “manutenedores dos privilégios” do que engolir em sêco e perceber que a solução não trará resultados para quem já foi prejudicado pelo sistema atual.
        Países como o Japão e a Alemanha no pós-guerra ergueram uma nação destruída (com problemas sociais MUITO mais graves do que os nossos) investindo em educação, num planejamento pra mais de 20 anos. Olhe pra lá e me diga o resultado.

  9. Vítor disse:

    Mário, como já disse em outra oportunidade, essas políticas afirmativas têm excelente resultado quando bem direcionadas e enquanto não descobrimos outra forma de reverter a desigualdade no Brasil.
    Também tenho minha bolsa universitária e no final deste ano cruzarei a fronteira que me separa do título de bacharel em Direito, graças, é claro, aos incentivos do governo. Não é atoa que, toda vez que alguém, em sala de aula, critica “as cotas” eu sou o primeiro a levantar e defendê-las! Só quem realmente precisa sabe como é importante esse benefício.
    Faço parte da “classe baixa”, sou branco e sei muito bem o que é exclusão social, mas não imagino o que seja isso àqueles que, ainda por cima, sofrem com o preconceito racial.
    É O QUE SEMPRE DIGO AOS DESAVISADOS: NÃO IMPORTA O MODO E O MEIO, MESMO QUE APENAS UM TENHO SAÍDO VITORIOSO, AINDA ASSIM TERÁ VALIDO A PENA!

    • mariomarcos disse:

      Perfeito, Vítor, e parabéns. Eu, como brasileiro e contribuinte, me sinto recompensado quando tomo conhecimento de histórias como a tua. E orgulhoso também de ter ajudado de alguma forma. O país precisa de ações afirmativas pelo tempo que for necessário, como bem dizes. Quando não for preciso mais, pronto, suspenda-se, como fizeram os EUA em alguns Estados.

      • Vítor disse:

        Bem lembrado Mário! Não é só o governo Lula, a Dilma ou outro que seja, somos todos nós contribuindo para que algo seja feito. Uns discordam, mas podem ajudar a acabar com isso. Para tal, basta cobrarem dos governantes medidas que ampliem o investimento em Educação Pública de qualidade E PARA TODOS! Contudo, sentados no sofá só rogando contra os pobres beneficiados não resolveremos nada!

    • Guilherme Lajeado disse:

      Vitor, com todo respeito, mas acho que não podemos dizer que se um “sair vitorioso” estas ações terão valido a pena. Porque a cada um que não sai vitorioso, existe um outro que, se tivesse tido a chance, poderia sair vitorioso. Ou não? E outra, cada ação tem um custo, e isto não pode ser desconsiderado, já que alguém paga a conta.

      O papel do Estado neste caso é maximizar o número de “vitoriosos” e não se contentar com casos isolados.

      • Vítor disse:

        Com certeza Guilherme, tudo tem um custo. Mas o fato de “um sair vitorioso” é uma espécie de metáfora, um símbolo da vitória contra um sistema que a maioria não concorda, mas também não faz nada para mudar. Uma pessoa sozinha não muda a história, mas pode ser o estopim para começar a mudança! abç

    • ZAMORA disse:

      Parabens Vitor. É isso aí.
      Para aqueles que são contra as Cotas,é barbada falar sendo branco.
      Como será que os negros se sentem ao serem deixados de lado por serem brancos?
      Como será que sentem quando um idiota ao seu lado, imita o som de macaco, numa arquibancada de futebol , agredindo um atleta adversário?

      • Real Fábio - Colorado disse:

        Bom dia Zamora, como já frisei sou contra cotas de qualquer natureza, mas não sou a favor do racismo ou qualquer outra discriminação. O que tentei explanar é a falta de investimentos em educação, se em vez de criarem cotas para minorias, aplicassem os recursos públicos num programa abrangente à nível nacional, todos sairiam beneficiados.
        O que ocorre é que todo acesso ao ensino deveria ser gratuito, independente do nível escolar, seja ensino fundamental, médio ou superior, com bolsas para todos os interessados, independente da classe social ou cor da pele. Penso também que deveria ocorrer uma reformulação completa no sistema de ensino, mas isto é outro assunto, embora obrigatoriamente precisariam estar interligados para atingir os resultados esperados.
        Abraço.

      • Pois é, Zamora. Se quer sair pra combater o racismo me convide que eu vou junto. Se quer iniciar um revanchismo, tô fora.
        Outra: existem negros que são contra as cotas também.
        É uma questão de opinião, não de racismo.
        Você está tendo dificuldades de respeitar opiniões contrárias sem desqualificá-las.

  10. DANIEL MATADOR disse:

    Já dizia o falecido Bob Marley: “Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, haverá guerra.”

    Por decisão do governo e judiciário, não interessa o mérito, interessa primeiro a cor da pele. Aí, depois de ver a coloração da cútis, discute-se quem tem mérito.
    Qual o problema de substituir as cotas raciais por cotas sociais? Essa história de que há programas para beneficiar a todos não procede. Pode até haver, mas são programas excludentes. Depois de “separar” o pessoal por cor da pele, aí pega-se o grupo restante e elabora-se um programa específico. Mas tem gente que acha que isso não é discriminação. Já desisti de entender e muito menos de tentar convencer. Até porque este mesmo pessoal tem este tipo de visão como dogma e não aceita outro prisma. Quase como os fanáticos religiosos.

    Pelo que nota-se na história, o Ronie não conseguia entrar na faculdade por ser pobre, e não por ser negro (ou afrodescendente, antes que algum zé ruela venha encher o saco). A cota social não iria resolver este problema? Ah, mas aí talvez algum branco (eurodescendente?), quiçá até mesmo mais pobre que ele, pudesse ocupar sua vaga. Por mérito, obviamente. Mas aí não pode. Não vale o brilho dos olhos. Vale a cor da pele.

    A propósito: será que depois deste texto o governo irá propor algum projeto de lei com cotas para canhotos e gêmeos univitelinos?

    Saudações Imortais

  11. Luiz Martini disse:

    Como estou meio lento hoje, só vou repetir, com a licença do Guilherme da minha querida Lajeado, seu último parágrafo de comentário aí acima.
    Não seria preciso debater o assunto por horas a fio, esse parágrafo resume e diz tudo.
    “Enfim, ainda sou contra as cotas por cor da pele, acho que a saída, mesmo que seja de longo prazo é o investimento maciço em educação primária. Só assim se dará oportunidades iguais (ou parecidas) a todos, desde o início do processo. Creio ser a forma mais justa, não prejudicando (e nem favorecendo) ninguém por alguma característica que, de fato, não deveria diferenciar ninguém”.

    Gostaria que os que discordam, incluindo o Mário Marcos, o fizessem com argumentos sólidos.
    Ah, “injustiça histórica”, para mim, não é argumento sólido!

    • Vítor disse:

      Com todo respeito que você merece, Martini:
      A “Injustiça histórica” a que você se refere é a mesma que em incentivo à “colonização”, comum na região onde moro, deu de mão beijada terras e mais terras aos italianos, em meados de 1900, em detrimento dos escravos que já não tinham mais valia por conta da Lei áurea? Se for essa “injustiça histórica” a que você se refere, então me perdoe, mas ainda continuo apostando nas políticas afirmativas, entre elas a política de cotas. Concordo que das justas não é a melhor, porém é a mais eficiente no momento.

      Se você, meu caro, está se sentindo injustiçado agora, imagine os que são injustiçados desde de sempre? Se coloque no lugar deles, veja que você também coloca sua história de luta como argumento para não concordar. abçs

      • Luiz Martini disse:

        É, prezado Vitor, é mais ou menos dessa injustiça de que falo.
        O que a gente poderia sugerir?
        Dar terra aos negros?
        Acho que temos é que olhar para a frente, ainda que no passado tenham sido cometidos erros.
        O rapaz da história relatada pelo MM provavelmente entraria numa Universidade e se daria bem mesmo sem as cotas, simplesmente porque dá para perceber que ele é daqueles que metem a cara no livro, tem garra, vontade, determinação e competência.
        Uma vez um governo aqui de SC levantou a possibilidade de dar um prêmio em dinheiro [!!!] para alunos de escolas públicas que passassem de ano [assim, simples assim].
        Aí um jornal foi fazer uma reportagem com alguns alunos.
        E tinha a foto de duas elegíveis para cotas, com suas caras de tolas e tansas, afirmando que “se houvesse um prêmio em dinheiro” elas até estudariam mais.
        Ou seja, por elas, elas nada fazem; se tiver grana na parada, aí muda…
        Isso é muito comum, cada vez mais, na Pindorama de hoje. Qual o paradigma, o exemplo difundido pela televisão, por exemplo?
        Ter bunda grande, ser inútil, participar de reality e se dar bem SEM FAZER ESFORÇO.

        Não vou mudar de opinião.
        Precisamos lutar para ter Escola Pública de qualidade e precisamos ter mais vagas no Ensino Superior público!
        Isso para mim é que é uma ação de alcance e inclusão social.

  12. Luiz Martini disse:

    O Brasil é o país dos diagnósticos.
    O Salário Mínimo, é baixo, as estradas estão saturadas, o Custo Brasil é alto, a corrupção corre desenfreada, a Escola Pública tem baixa qualidade…
    Todo mundo sabe disso e de muito mais, mas no geral, ficamos nos diagnósticos, sem adotar as soluções corretivas.

    Bem, então constatou-se que a Escola Pública tem baixa qualidade e que os alunos mais CARENTES [falei carentes, não falei negros!], delas egressos, não conseguiam competir em pé de igualdade nos Vestibulares das Universidades FEDERAIS.

    Solução, num país sério: MELHORAR a Escola Pública e, adicionalmente, AUMENTAR as vagas no Ensino Superior Público.
    Solução, na Pindorama: arrombar a porta estreita da Universidade de vagas insuficientes para qualquer segmento social [sim, tem branco rico que também não passa no Vestibular!], inventar cotas raciais e justificar que se está fazendo um grande bem para a Humanidade.

    E a Escola Pública que continue a mesma droga…
    E as vagas que continuem insuficientes…

    Ah, como eu queria que aqui fosse a França! [Ensino PÚBLICO de qualidade do Maternal ao Doutorado].

    Ass:
    Luiz Martini, branco com sangue índio e europeu [avó índia, avô italiano], destro, neto de servente de pedreiro, filho de mãe com 4 anos de escolaridade, engenheiro que já deixou de fazer muita festa para enfiar a cara no livro ao longo da vida e das madrugadas…

  13. Santiago disse:

    História interessante e edificante.
    Pessoalmente, considero esse tema das cotas um caso em que a tendência a simplificar análises traz resultados bastante ruins.

    De um lado, muitos consideram que as cotas apresentam problemas e criam injustiças, portanto devem ser terminadas.
    De outro lado, radicais esquerdistas não aceitam qualquer crítica ao modelo assistencialista do Lula (derivado dos anos dourados do Fernando Henrique e depois mantidos pelo PT).

    Na minha opinião, especificamente, penso que o sistema de cotas deveria ser mantido, porém com as necessárias revisões para se levar em conta o fato óbvio de que a sociedade brasileira é miscigenada.
    Nesse sentido, foi brilhante a capa da Veja (tratada com despeito e ódio pela professora, símbolo do desprezo por qualquer um que pense de maneira diferente do socialismo tosco) em que dois irmãos gêmeos foram classificados de maneira diversa, um como negro e outro como branco.

    • mariomarcos disse:

      É um espanto. Lá vem aquela irresistível tentação de ideologizar. Se leres os comentários verás que há gente de todas as tendências a favor ou contra, sem dividir em esquerda ou direita. É forçar demais.

  14. Guilherme Lajeado disse:

    Aproveitando o tópico:
    No ensino superior, 38% dos alunos não sabem ler e escrever plenamente
    http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,no-ensino-superior-38-dos-alunos-nao-sabem-ler-e-escrever-plenamente-,901250,0.htm

    É o que eu disse ontem, acho que deveriam existir outras prioridades, principalmente a educação básica de qualidade para todos. Creio que o tempo vai provar que, salvo casos pontuais, seguiremos gastando dinheiro de forma equivocada.

  15. Alexandre disse:

    No Brasil é interessante, a discriminação é crime pois todos são iguais perante a lei, mais o STF prega a discriminação com a criação de cotas para indios. negros, pobres e deficientes, em vez de darem condiçoes a estes se prepararem para conseguirem estas vagas por si próprio, melhorando a educação nas escolas publicas. Vamos ver o resultado, dos futuros formandos se os mesmos se ormarem sem uma base de conhecimentos necessios que profissionais formaremos, oxalá o govêrno conserte a tempo esse erro cometido para se evitar uma tremenda inversão de valores, profissionais que serão ridicularizados.

    • mariomarcos disse:

      Não precisas esperar pelo futuro. Saíram algumas pesquisas das próprias universidades (Rio, SP, SC…) mostrando que o desempenho dos alunos de escolas públicas e de cotistas é igual ou superior aos outros estudantes.

    • mariomarcos disse:

      Não precisas esperar pelo futuro. Saíram algumas pesquisas das próprias universidades (Rio, SP, SC…) mostrando que o desempenho dos alunos de escolas públicas e de cotistas é igual ou superior aos outros estudantes. Meus dois filhos foram sorteados para estudar no Aplicação, um no primeiro, outro no quinto ano. Como era sorteio público, havia estudantes de todos os níveis sociais, econômicos, familiares. Foi um aprendizado espetacular para os dois. Conviveram com colegas de classe média alta/altíssima e outros dos primeiros degraus da pirâmide. Foram sempre bem sucedidos como estudantes e hoje são profissionais bem situados no mercado de trabalho. Acertei em cheio ao tirá-los de escolas particulares e lutar para que estudassem no Aplicação. Vale o mesmo para este caso das cotas.

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