Democracia no Egito? Esqueceram de perguntar aos militares

Pobres egípcios. Tomaram as ruas do Cairo, ocuparam a Praça Tahrir e conseguiram derrubar o presidente de longa data Hosni Mubarak.

Passaram enrão a sonhar com a democracia. Só esqueceram do poder militar, o mesmo erro cometido por outros sonhadores ao longo da história.

Mubarak saiu, foi preso, mas seu lugar foi ocupado por uma junta militar, com a desculpa de sempre: proteger o país até o momento de entregar o poder aos civis (você já ouviu este discurso em algum momento, certo?).

Veio a eleição presidencial. Com a lista de candidatos e o surgimento de ‘favoritos inconvenientes’, os militares agiram de novo. Cancelaram a eleição e suspenderam candidatos.

O país elegeu uma assembleia, que depois da eleição prsidencial seria encarregada de elaborar as novas leis do país. O que fizeram os militares? Fecharam o Congresso, alegando irregularidades nas eleições.

Finalmente, enquanto os egípcios corriam às urnas na última semana para votar e escolher o novo presidente, a junta militar baixou resoluções reduzindo o poder do Congresso, com a mensagem clara de que o poder do futuro presidente será limitado.

Não apenas isso. Eles anunciam a disposiçào de pensar em nova Constituição. Não querem correr riscos.

Tudo pelo bem do país, claro, na visão dos militares, mesmo que a população pense em outras soluções.

O mais espantoso é o seguinte: apesar do evidente golpe militar, as grandes nações, as mesmas que saudaram os movimentos como um sinal de que a democracia chegaria aos países da região, estão em silêncio.

Nenhum protesto indignado de Hillary Clinton, sempre pronta para dar lições de moral e fazer ameaças, David Cameron ou François Hollande.

Nestes momentos, em que os amigos ditam as regras, eles esquecem rapidamente da população e das pregações democráticas.

About these ads

Sobre mariomarcos

Jornalista, natural de criciúma, fã incondicional de filmes, bons livros e esportes
Esse post foi publicado em Gente e marcado , , , . Guardar link permanente.

12 respostas para Democracia no Egito? Esqueceram de perguntar aos militares

  1. Zeca Nivete disse:

    Quem sabe está sendo conveniente para eles.Por isso não vão se manifestar.

  2. Fernando disse:

    Mas tua visão de geopolítica além de contaminada por ideologia, o que faria Maquiavel se revirar no caixão, é mal intencionada e sem nenhum embasamento histórico.

    Primeiramente, o temor dos militares egípcios é a perda de poder e as benesses que por décadas que eles desfrutaram por anos, desde o tempo do “democrático” Gamal Abdel Nasser. Os militares egípcios foram doutrinados por duas escolas, os mais antigos(Pré-79) pela escola soviética, Os militares pós-79 foram em grande parte doutrinados pelas escolas americanas/inglesas. Apesar da difereça ideológica, militares não gostam de serem comandados por políticos em nenhum lugar do mundo, tanto que os países democráticos tem fortes dispositivos constitucionais para manter suas forças armadas “na rédea”, o Egito nunca teve isso. Os militares jogaram sempre como temor da população de serem obrigadas a viver numa teocracia nos moldes iranianos ou sauditas, o que gera calafrios nas minorias cristãs coptas, ortodoxas e católicas no Egito. E gera o mesmo entre os muçulamanos moderados e “ocidentalizados”. Outro temor seria as consequências da tomada do poder por um governo que rasgasse o tratado de paz com Israel.

    Anwer El Sadat, que fez a paz com Israel e tirou o Egito do caminho do totalitarismo religioso, foi vítima da Irmandade Muçulmana, do ressentimento fardado das duas surras sofridas de Israel(67 e 73) e da vingança dos nasseristas que nunca aceitaram os acordos de paz de Camp David. Sadat foi metralhado pelo ressentimento nacionalista pelo “crime” de ter feito a paz, tal qual Rabin por um sociopata fanático nacionalista, quinze anos depois.

    A culpa é das potências? Quais potências? Quem criou o estado militar egípcio? Quem jogou o Egito em duas guerras contra Israel, resultando em dois vexames históricos? Quem gerou o pan-arabismo nasserista, um estado autoritário, militarista, racista e anti-semita? Elementar, caro Watson.

    Mubarak era vice de Sadat, Sadat foi vice de Nasser. Sadat não era um democrata propriamente dito, mas queria viver em paz com seus vizinhos, queria dar uma vida melhor ao seu povo, queria criar instituições democráticas sólidas. Morreu por isso.

    A economia egípcia esta em frangalhos desde a primavera árabe, o Egito não tem petróleo, vive do Canal de Suez e do turismo. O Canal de Suez é um canal antigo, estreito para os navios modernos que acabam contornando a Africa mesmo com o risco dos piratas somalis. O turismo no Egito praticamente desapareceu no último ano e meio. O governo provisório egípcio já vive sob restrições da ONU e do Banco Mundial, ou seja, não tem dinheiro.

    A questão do Egito é POLÍTICA, não é militar ou humanitária feito a Síria. Muçulmanos e cristãos cooptas estão unidos por democracia no Egito, enquanto na Síria sunitas e alauítas estão se matando. O erro do ocidente é achar que vão impor democracia a uma sociedade amarrada por décadas em 18 meses. As pessoas não sabem bem o que querem, um governo religioso? Um candidato “milenar”? E os encastelados no poder não querem perder a “boquinha”. Consequentemente, eleições e democracia viram sinônimo de ameaça para os donos do poder. O Egito vai rapidamente empossar um presidente eleito, seja lá quem for, e fazer uma constituição. Não existe como para a reação em cadeia da sociedade egípcia. Na Síria sabe-se lá até quando vai a carnificina de Assad.

    Enquanto isso Bashar Al-Assad passa o tanque na oposição com o beneplácito de Moscou e Beijing. É afinal, democracia é quando “nós” mandamos, ditadura é quando “eles” mandam.

    • mariomarcos disse:

      Mas onde eu falei que é culpa das potências? Onde eu falo que o culpado é o setor religioso ou o político do Egito? Apenas relacionei os fatos. A única citação às potências está no fim do texto, quando digo que elas estão em silêncio, aceitando a confusão. Só falei dos egípcios e dos militares. Estou falando de um período específico, sem qualquer análise sobre a história do Egito ou de seus líderes. E o que tem a ver comunismo com a Rússia, que rompeu com o sistema há muito tempo? Ou com a China, que é um comunismo muito bem engolido pelos demais países por causa de seu mercado? Estou espantado com a distorção que fizeste, o que me surpreende, já que eu não sei nada e tu és um sábio em geopolítica.

      • Fernando disse:

        A Rússia abandonou o comunismo, mas mantem velhos hábitos geopolíticos. Como chantagear seus vizinhos, influenciar suas eleições e passar os tanques de vez em quando. Vá a qualquer país Báltico, ou do Cáucaso ou a Ucrânia e pergunte se a Rússia não influi em sua política interna. A Rússia apenas trocou o totalitarismo dos caquéticos do politburo, pelo autoritarismo de Putin/Medvedev que sufocam qualquer forma de dissidência, inclusive dissidência de ESQUERDA, aliás a esquerda russa foi ROUBADA por Putin nas últimas eleições. Pressão política e econômica não gera manchetes, apenas cubinhos em pés de página. Qual a solução então? Bombardear a Suprema Corte egípcia no Cairo? O Egito tem uma crise POLÍTICA E INSTITUCIONAL não muito diferente das que o Brasil teve nas décadas de 50/60.

        Pela enésima vez, PAÍSES NÃO TEM AMIGOS, TEM INTERESSES, esta frase de Charles de Gaulle mostra como política, ainda mais internacional, é AÉTICA, que não é o mesmo que anti-ética, Política internacional é AÉTICA quando Molotov faz um pacto com Ribbentrop, quando Richard Nixon reconhece a China Comunista e vai a Beijing encontrar Mao Zedong, quando Geisel compra petróleo da URSS e dá uma figa aos portugueses que buscavam apoio brasileiro na Guerra de Independência de Angola.

        Não sou sábio em geopolítica, mas tenho formação acadêmica no assunto. Não sou chutador…

      • mariomarcos disse:

        Nem eu e não sei de onde concluíste, num texto que apenas relacionou fatos, a questão ideológica. Sei bem que países têm interesses, mas isso não me impede de me irritar com a hipocrisia (o que é ruim hoje, vira bom amanhã por causa destes interesses). Por sinal, hoje acessei artigo de Lawrence Wright, autor do excelente O Vulto das Torres (e que sigo no Facebook), publicado na The New Yorker, em que ele (e não eu, portanto, que não sei nada de geopolítica, ao contrário de sábios acadêmicos que não são chutadores) conclui assim: “(…) Os EUA possivelmente não terão influência alguma no futuro do Egito se continuarem a demonizar e se opôr à ambição dos egípcios de alcançar real expressão democrática, com todos seus perigos. Sessenta anos de inexplicável ditadura militar têm mostrado quão ‘estéril’ é a alternativa. Com Hosni Mubarak no fim da vida, é hora de “puxar o plug” do apoio americano a esse regime militar e antidemocrático”.

      • Fernando disse:

        As relações políticas são marcadas pela hipocrisia desde que a Terra é redonda. Se tu voltar lá na Roma antiga vai ver que o Senado Romano era um poço de hipócritas e cínicos, eternamente metidos em fuxicos e traições. Acha que Brutus matou o pai Julio César sem estar metido em nenhuma conspiração do senado? Um dos motivos para dementes feito Calígula e Nero desprezarem o senado era sua dita ojeriza a política “hipócrita” dos seus senadores. O purismo deles misturado a seus problemas mentais botaram ambos nas páginas mais assutadoras da história.

        Política é a arte do cinismo e da hipocrisia, é o exercício de humildade em aceitar botar os interesses políticos acima das convicções pessoais. Em engolir os sapos das relações políticas e seguir em frente, em todo mundo civilizado é assim. Obama não aprovou o seu plano de saúde pública, teve que ceder em vários pontos aos republicanos. O que ele poderia fazer? Dar um golpe? Fechar o Congresso e o Senado americano? Teve que recuar em vários pontos negociando para que algo fosse aprovado, caso contrário não teria nada.

        Qual a alternativa a política hipócrita? Uma é o autoritarismo, uma figura fascista mandando de cima pra baixo, exercendo as figuras de executivo, legislativo e judiciário. A outra é a guerra, com a aniquilação total das forças contrárias e com a imposição da vontade dos vitoriosos.

        Quando JFK fez o acordo secreto com Nikita Kruschev sobre os misseis nucleares em Cuba uma das suas frases reveladas em documentos secretos da Casa Branca foi que “é melhor um acordo amargo com os soviéticos do que uma maldita guerra”. Se Kennedy tivesse ouvido os puristas que defendiam uma alternativa não-política em 63, provavelmente teríamos tido uma guerra nuclear.

        Os Estados Unidos apoiaram o regime Mubarak, um regime fascio-autoritário, muito mais por ser uma forma de sustentação a uma paz com Israel que se não fosse mantida poderia devastar com a existência do estado judeu. Em 67(Guerra dos Seis Dias) Israel venceu com certa folga, em 74(Guerra do Yom Kippur) a vitória foi apertada e Israel esteve as portas da destruição, ao ponto de ameaçar o uso das suas armas nucleares num golpe desesperado. Da mesma forma os Estados Unidos puxaram o “plug” de Israel quando os generais israelenses estavam prontos para marchar até Damasco, o que a URSS não permitiria.

        O Egito vive em paz com Israel desde os acordos de Camp David, a Jordânia apesar de não ter um acordo formal vive em tranquilidade com Israel, o governo da minoria síria agora se ocupa mais de massacrar seu povo. Os palestinos e os israelenses parecem querer voltar a mesa de negociações, até Bibi Netanyahu e o Hamas já deram alguns fracos sinais de quererem fazer a maldita política.

        Os Estados Unidos só vão “puxar o plug” do Egito quando tiverem absoluta certeza que o governo que assumir, seja da Irmandade Muçulmana, seja dos reformistas seculares, se comprometer com a manutenção do status quo com a região. Depois que os americanos financiaram a derrota do Exército Vermelho no Afeganistão “puxaram o plug”. Deixaram o país a própria sorte, na mão de senhores da guerra, traficantes de ópio, fanáticos religiosos e terroristas. O resultado esta aí até hoje.

        O Egito vai ter em breve a assunção de um novo governo, eleito democraticamente pelo voto popular. Mas o principal motivo do berreiro fardado no Cairo não tem nada a ver com Washington. Desde a revolução republicana egípcia de 1952 que derrubou o Rei Farouk os militares tem o poder. Depois de 60 anos mandando e desmandando não vai ser em 18 meses que vão aceitar as necessárias e urgentes democráticas.

      • mariomarcos disse:

        Tudo bem, sei de tudo isso, mas o fato de ser assim desde o início dos tempos, como dizes, não me obriga a gostar nem a concordar. É só uma questão de opinião e de princípios.

  3. Ronaldo disse:

    Os governos ocidentais não gostariam de um novo governo feito por muçulmanos radicais como é no Irã. Sem ainda estarem no governo,integrantes da irmandade muçulmana estavam açoitando e perseguindo egipicíos por ordens religiosas, imaginem eles no poder?..alguem gostaria de vêr isso acontecer?

  4. Hugo disse:

    O problema da “Primavera Árabe” é que o Ocidente só ajudou na sua parte mais light: fazer a rede de contatos entre os ativistas/proselitistas/agitadores existentes dentro da própria população destes países em questão (Egito, Tunísia, Líbia, etc.) – tanto que cansei de ler reportagens altamente babaovos a respeito do papel ma-ra-vi-lho-so desempenhados pelos Twitter, blogs, Facebook e trololós do gênero para o êxito dessa turba “sedenta de democracia e liberdade” no NYT da vida, etc.

    Bem, mas só que isso é só o lado romântico de qualquer “revolução que busque a democracia e a liberdade”; mas, e quando começa o lado pragmático e real de qualquer movimento sob qualquer linha de pensamento/ideologia, o quê o Ocidente lhes proveu? Isto é, o Ocidente lhes deu $$$ para efetivamente emprestar sucesso a essa ‘busca pela democracia e liberdade”?…Rá! Aí o Ocidente pulou fora…ou seja, pensou, safadamente, que pros “pobres e oprimidos” do Oriente Médio/Norte da África bastava só “democracia e liberdade” e derrubar o “ditador” de plantão que estaria tudo bem.

    Não! O povodo Oriente Médio e do norte da África são pessoas de carne & osso como os mesmos que existem pelas bandas de cá do Atlântico que anseiam por OPORTUNIDADE DE TRABALHO para seus jovens que saem das universidades de lá…mas, isso (oportunidade de trabalho) o Ocidente não pode prometer (ou não quis, haja visto a crise)…daí que, recorrendo a um eufemismo, o Ocidente ajudar a derrubar o “ditador” das “Arábias” de plantão é pura irresponsabilidade…

    Pra não dizer em hipocrisia, pois se estão tão preocupados com a impossibilidade da “democracia e liberdade” reinar por lá, por que o Ocidente não dá uma mão e derruba os Saud da Arábia Saudita, país que pelos parâmetros ocidentais é tão “antidemocrata e opressora” quanto China e Cuba, mas, surpresa!…desde 1925 que o Ocidente nãosó não derruba esses “ditadores”, como ainda luta para mantê-los no poder…e depois dizem que o líquido milagroso é a água-benta. Tô achando que é o petróleo…

  5. jacob shalon disse:

    perfeito MM , é isso aí mesmo…
    tudo é por interesse, se é interessante do ponto de vista econômico ou geo-político pregar a democracia , eles pregam a democracia
    se é interessante pregar a ditadura , eles pregam a ditadura

  6. jacob shalon disse:

    veja esse artigo: http://www.vice.com/read/afghanistan-s-new-capitalism-676-v18n1

    aqui no brasil , os EUA em nome de sua política de guerra às drogas , dita regras e condena as FARC por terrorismo
    lá no Afeganistão eles tem seus próprios aliados dividindo condomínios com lordes do tráfico

    ou seja , se é para abastecer o mercado americano de cocaina colombiana , é terrorismo agora, se é para impregnar a Russia , china e arredores de heroína , não é.
    (isso sem falar na europa e demais países, em que há um valor agregado enorme)

  7. alexandreehlers disse:

    É longo o caminho da democracia. E como já disseram antes: SÓ PORQUE NÃO É UMA DITADURA NÃO QUER DIZER QUE SEJA UMA DEMOCRACIA.
    E o Brasil está nessa, numa democracia imperfeita ainda. Mas temos apenas 28 anos (é isso?) da volta da democracia em nosso país, então mal ou bem estamos caminhando.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

Você está comentando usando sua conta WordPress.com. Sair / Mudar )

Imagem do Twitter

Você está comentando usando sua conta Twitter. Sair / Mudar )

Foto do Facebook

Você está comentando usando sua conta Facebook. Sair / Mudar )

Conectando a %s